Thursday, May 28, 2020

Eu não sei de onde me vem coragem e força pra sentar e escrever.
Escrever aqui, neste diário, na rede social, no livro que vou aos poucos traduzindo.
Na vida.
Cada linha é um sinal de um ciclo respiratório a mais ou mais.
Algumas vezes eu já quis pensar que seria melhor já ter ficado doente e sarado, ou não sarado.
Algumas vezes eu já pensei em desistir de fugir.
Aí eu fecho os olhos e minhas mãos tocam os cachinhos na imaginação.
E ouço a vozinha aguda chamando pra brincar de massinha.
Na imaginação.
Os dedinhos miúdos moldaram meu cérebro, meu coração, minha alma, e sigo vivo, vivendo, viverei... por enquanto.
Ah, que na minha imaginação às vezes não sei se minha vida vale a pena, meu filho...
Mas no mundo real a sua vale.

Monday, May 25, 2020

Saudade de Cuba

É a última semana do mês.
Os Beatles cantam na caixa de som. Uma coisa.
Abbey Road. O fim.
Que bom seria que a pandemia acabasse.
Hoje tem liturgia de abertura da Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos.
Sempre achei, e sigo achando, uma pena que a maior parte das pessoas acredite que Unidade diz respeito a se esquecer quem se é ou valorizar acima de tudo os pontos com os quais se concorda.
Acredito mais em Unidade como gentil discordância, num ambiente de liberdade.
Tenho saudade de Cuba. Nunca estive lá... mas que saudade de Cuba, por ser apenas o oposto da porcariada selvagelmente capitalista que nos envolve no Brasil. Putz.
Dizem que em Cuba há pouca liberdade de expressão. Acho curioso quem diz isso. Todas as pessoas cubanas que conheço (conheço algumas) não dizem isso. Dizem que têm medo da geração que está em formação por lá, que quer consumir, e não valoriza as conquistas sociais que houveram. Alimentação, moradia, saúde, educação - o REALMENTE necessário. E criticam o governo.
Posso estar errado.
Uma amiga, Griselda, me disse uma vez: "a vida para nós em Cuba não é tão ruim quanto os que não gostam de Cuba dizem, nem tão boa quanto os que gostam propagandeiam. Mas temos tudo o que é necessário."
Necessidade.
Os Beatles acabaram porque Paul achava necessário impor as músicas que ELE gostava para serem gravadas pelos outros. Silver Hammer...
Não sei o que imponho aos outros. Tenho medo de o fazer. Mas defendo pontos de vista meus, e gostaria que as pessoas os tomassem como válidos. Como possíveis.
É possível ser feliz e capitalista. É possível matar alguém com um martelo prateado e ser feliz. É possível. Posso acreditar que é possível. Respeito que seja possível. Mas isto não pode me impedir de dizer e querer todo o em contrário destas coisas. E de querer impedir que as pessoas que desejam realizar estas possibilidades o façam.
A mente divaga, vai e volta. Há âncoras. A âncora impede que o sopro que a mente é impulsione o navio da vida pra fora do que é seguro.
E o que é a segurança senão a garantia do necessário?
Digito palavras sobre Orígenes e o quarto século enquanto a terra ali fora descansa, capinada, varrida, preparada para se tornar fonte de suprimento de necessidade.
Sobrevirão uns reais (que cada vez valem menos) de toda essa digitação abestada. Esses reais se tornarão pagamento de necessidades.
Sexta passada consegui um importante objetivo: paguei tudo o que havia para pagar lá de casa. Estamos em dia com tudo, tudo, tudo. Adiantados inclusive.
Se eu morrer ou faltar ou ... haverá algum respiro para Antonio, com Gisele. Eles terão chance. Não deixo nenhum problema senão os que estão fora do meu alcance.
Ao meu alcance está chorar com os vocais de Harrisson, lamentar sua morte, desejar que as sementes de abóbora dágua germinem, guardar água da chuva, digitar o livro. Ganhar algum dinheiro, pagar o necessário, que deveria me ser grátis, e rezar às 20:00 para que, em meio as discordâncias, haja respeito e garantia de liberdade de discordância.
Que saudade de Cuba.
Será que lá é assim?
Olho pro meu lápis, trazido por Frei Maurício. Na ponta, um vidrinho com terra de Cuba.
Cuba está sobre minha escrivaninha.


Sunday, May 17, 2020

um texto despido.

Às  vezes quando dispo, cuidadoso e após pedir licença, o meu filho-passarinho, me pasmo com a confiança dele em mim. 
Idem sobre quando me assento ao computador e pago as contas. 
Ou quando me deito e com o terço na mão me lembro de que sonhos tenho. 
Poder sonhar é uma grande responsabilidade. 
Espero não me apavorar nas próximas 8 semanas. 
Não espero, hoje, nada menos que o pior. 
O comércio de Juiz de Fora, segunda cidade mais atingida pelo surto no estado, será parcialmente reaberto amanhã. Ameaçaram matar o prefeito se ele não reabrisse, dentre outras coisas. 
Estou com muitas saudades dos encontros familiares e de igreja. De poder andar livremente por aí. De ir nas casas dos amigos. 
Amanhã semearei moranga. 

Friday, May 15, 2020

no cabo da enxada

Escrevo assentado no cabo da enxada. Deitei-a fiz do cabo um poleiro. 
Estou bem no meio do terreno que estou a preparar. Chove. Está  escuro, o Sol acaba de se pôr. 
Os pingos de chuva que suaves atravessam as copas das árvores no bosque que mantenho em pé, tendo capinado só o capim e a erva ao rés do chão, me fazem sonhar. 
É bonito. 
É relaxante. 
É um sonho. 
Imagino que bom seria se daqui a 100 dias, na colheita das batatas que serão plantadas na próxima terça (hoje é sexta), a pandemia estiver sob controle. 
Teremos festa. Batata doce roxa assada nos galhos das árvores que podei ou nos muitos que achei no chão. 
Tudo será grátis. 
E se não houver sido controlada... 
Bem, serão distribuídas na medida do possível por todos os membros da comunidade que estiverem em dificuldade financeira. 
E haverá festas, cada uma em cada casa.
Inda me recordo do moço que pulou de alegria quando chegamos a ele com o que sobrou do almoço beneficente que fizemos em 1998, para a compra de um teclado Roland XP-80.
Ele tinha apenas um chuchu para si e os dois filhos. Provavelmente não comeria naquele dia.
Chegou a comida a ele. Era arroz, tutu, salpicão e pernil. Me lembro bem. 
Ele recebeu agradecido, meio cabisbaixo  e envergonhado.
Quando os irmãos estavam indo embora o viram pulando com os filhos,  de alegria. 
Não sei da vida de cada um daqueles irmãos. Num ponto do caminho que se bifurcou 8 anos atrás, decidiram que eu não poderia mais ser contado como irmão. Me expulsaram. 
Eu cantava. 
E dançava. 
E fazia festas. 
Nunca mais cantei,  não com toda aquela festa e pompa. 
Cantei e sigo cantando engasgado, somente em culto a Deus. Era assim também naquela época. Eu era o vocalista masculino principal de uma banda de louvores e tal. 
Hoje sou quase um ministro ordenado, na mesma igreja que é de Cristo (só existe uma), não mais romano. 
Eu não posso abençoar nada. Ainda não recebi das mãos de algum bispo, sucessor dos apóstolos, a ordem para tal.
Mas eu posso orar. 
E oro. Toco a terra agora. E oro. 
Que essas batatas e  tudo o mais que crescer aqui sejam comidas em festa, tão ou mais grandiosas que aquela que o moço de quem nem sei o nome, nem nunca soube, fez com os filhos. 
Seja aqui nesta casa, seja na casa de cada  um, haja festa com esse alimento que preparo, pacientemente, para todos e todas. 
Seja cada enxadada minha uma reza, seja cada rega uma bênção, seja cada adubo uma unção, seja o que nascer daqui motivo de comunhão. 
Amém. 

O direito de comer é sagrado. Estão ameaçando este direito dos brasileiros. Há muito tempo. Pecam. 

O novo ministro da saúde pediu demissão hoje. Ficou menos de um mês. A crise se agrava. Não há perspectiva de saída política. 

Deus, escute o clamor de seu povo escravizado e nos livre deste Faraó. 

Tuesday, May 12, 2020

batata roxa

Hoje foi dia da Gisele ter alergia e eu ficar com medo... 
Mas uma linda loratadina resolveu tudo em duas horas. 

Fiquei com o Antônio em casa. O tempo passou depressa...
Lavei todas as roupas de uma parte do guarda roupa q está com um cheiro estranho. Entre elas, uniformes de karate e de ju jitsu. Este já está mofado, era a provável origem do cheiro. 

Fiz bolo com  Antônio para o convencer a sair da TV. Agora ele é fã do Pocoyo. Invento coisas pra ele desligar a tv.

Não sei bem do que brinquei com ele. Mas brinquei de algumas coisas,  além de fazer bolo. 
Carrinhos, com um cinto de segurança para o Agenor. De limpar o armário, embora ele tenha ficado contrariado de não poder usar água sanitária. De dançar. De... 

As vezes me sinto um pai meia boca. Fico pensando no tanto que me incomoda ser responsável por ele. Acho que todo pai se incomoda. Como não se incomodar com a preocupação, com a angústia de ter de dar conta de ajudar uma pessoinha adorável se tornar um jovem e adulto decente? Como não se apavorar ao perceber a miudeza das  costas dele em minha mão direita, que as cobrem em 70%? Como não temer não estar fazendo nada direito? 

E quem disse que existe direito, melhor, perfeito? Só existe  o melhor de si. Todo mundo sabe disso. Mas isso não quer dizer que a ansiedade para poder ser melhor de si pra si e pra seu filho e pra todos se torna menor. Não se torna menor. Segue imensa. 

Janaina trouxe vegetais com o Fábio, e vieram abobrinhas a mais. Adoro abobrinhas. Ainda não os agradeci. 
Coloquei uma batata doce para brotar, na água. 

Antônio perguntou se a mandioca era batata doce. Disse que não. Ele comeu um pouco de mandioca. Eu também. Gisele também. Tinha um pouco de amargor. Nada muito intenso. Lógico que pensei ser ácido cianídrico e que  morreríamos todos esta noite. Mesmo após ter lido que o  ácido cianídrico tem ponto de ebulição a 25 graus e concluir que se era isso era origem do amargando, era pouco pois a panela de pressão atinge 120 graus...  Ainda sigo um pouco esperando vômitos e sufocamento e tosse. 

Eu sempre espero vômitos e tosse. 
São os sintomas mais horrorosos para mim. Sempre fico apavorado com qualquer tossidinha. Perco o sono se Antônio tem algum refluxo. 

Pensar numa doença q provoca tosse em adulto e náusea em criança é assustador. 
Pensar em mandioca enauseante é assustador. 
Viver é assustador.

Disse que não. A batata doce roxa é outro gosto.
Porque  o papai pos a batata na água? 
Para que a gente tenha mais batatas daqui a um tempo. 
Viver é assustador. 

A pandemia está se tornando mais assustadora. Pessoas cada vez mais próximas ficam graves, morrem. 
O tio de um amigo clérigo morreu em casa. Moravam somente ele e a mãe do clérigo. A última atualização que tive era que o IML ainda não buscara o corpo. 
Um conhecido de infância, mais jovem que eu, esteve grave no hospital.
A clériga amiga que não sabia se fazia ou não o exame ainda tem sintomas, após 30 dias do aparecimento dos primeiros destes. 

Gisele está dormindo. Antônio está dormindo. Jair está dormindo, bem como o STF e Rodrigo Maia. 
Todos dormem, intranquilos. 

Também dormirei intranquilo, com o terço na mão, pensamento concentrado em Gisele e em Antônio para que não tenham nada e a história do cianídrico da mandioca seja só estupidez da minha mente. 
Bem como convencido de ainda não pegamos covid. 

Dormirei com o pensamento a mil, querendo saber de tudo,  resolver tudo. 

Mas em cima  da geladeira, a batata colherá os raios de sol do amanhecer e talvez brote. 
Intranquilo, também dormirei sonhando com batatas. 
Não serão as melhores possíveis. 

Serão as melhores de si mesmas, se e quando forem, porque serão apenas elas mesmas.

Dormirei de algum modo. Sempre durmo. 

Dormirei sendo eu mesmo. 

Em mim, esperanças anseiam brotamento e novas chances. 


Monday, May 11, 2020

entre mundos

Atendi pessoas em crises pelo telefone. 
Fiz uma parreira para chuchu e outra para bucha. 
Capinei Mato (e como!).  
Fiz uma calçada  com os tapetes de eva. 
Teve um dia que simplesmente não fiz nada, até mesmo joguei sinuca no notebook, algo que não fazia há três anos ou mais. 
Até mesmo uma roçadeira eu fiz, usando um motor de liquidificador, uma lata de doce velha e abraçadeiras de nylon. 
Eu fiz coisa demais... 
Brinquei com Antônio, ajudei Gisele a fazer um vídeo, fiz peixe feito (primeira vez que Antônio comeu, ele adorou), escrevi para o devocional Sementes. 
E aí não quis escrever por uns dias. 
Fiquei cansadinho. 
É isso. 

Friday, May 8, 2020

Regina Duarte

Dez mil brasileiros mortos por covid e o presidente marcou um churrasco amanhã. 
Milhões em casa pra escapar da doença ou evitar a propagação da mesma e o presidente marcou um churrasco amanhã. 
Dezenas de milhões preocupadas enquanto muitos vão para o cercadinho do palácio do planalto tocar pandeiro pro louco sambar. 
Dezenas de milhões fecharam as portas e faliram pelo bem estar social e o presidente vai fazer um churrasco amanhã. 

São Darwin 
Rogai por nós.