Friday, May 15, 2020

no cabo da enxada

Escrevo assentado no cabo da enxada. Deitei-a fiz do cabo um poleiro. 
Estou bem no meio do terreno que estou a preparar. Chove. Está  escuro, o Sol acaba de se pôr. 
Os pingos de chuva que suaves atravessam as copas das árvores no bosque que mantenho em pé, tendo capinado só o capim e a erva ao rés do chão, me fazem sonhar. 
É bonito. 
É relaxante. 
É um sonho. 
Imagino que bom seria se daqui a 100 dias, na colheita das batatas que serão plantadas na próxima terça (hoje é sexta), a pandemia estiver sob controle. 
Teremos festa. Batata doce roxa assada nos galhos das árvores que podei ou nos muitos que achei no chão. 
Tudo será grátis. 
E se não houver sido controlada... 
Bem, serão distribuídas na medida do possível por todos os membros da comunidade que estiverem em dificuldade financeira. 
E haverá festas, cada uma em cada casa.
Inda me recordo do moço que pulou de alegria quando chegamos a ele com o que sobrou do almoço beneficente que fizemos em 1998, para a compra de um teclado Roland XP-80.
Ele tinha apenas um chuchu para si e os dois filhos. Provavelmente não comeria naquele dia.
Chegou a comida a ele. Era arroz, tutu, salpicão e pernil. Me lembro bem. 
Ele recebeu agradecido, meio cabisbaixo  e envergonhado.
Quando os irmãos estavam indo embora o viram pulando com os filhos,  de alegria. 
Não sei da vida de cada um daqueles irmãos. Num ponto do caminho que se bifurcou 8 anos atrás, decidiram que eu não poderia mais ser contado como irmão. Me expulsaram. 
Eu cantava. 
E dançava. 
E fazia festas. 
Nunca mais cantei,  não com toda aquela festa e pompa. 
Cantei e sigo cantando engasgado, somente em culto a Deus. Era assim também naquela época. Eu era o vocalista masculino principal de uma banda de louvores e tal. 
Hoje sou quase um ministro ordenado, na mesma igreja que é de Cristo (só existe uma), não mais romano. 
Eu não posso abençoar nada. Ainda não recebi das mãos de algum bispo, sucessor dos apóstolos, a ordem para tal.
Mas eu posso orar. 
E oro. Toco a terra agora. E oro. 
Que essas batatas e  tudo o mais que crescer aqui sejam comidas em festa, tão ou mais grandiosas que aquela que o moço de quem nem sei o nome, nem nunca soube, fez com os filhos. 
Seja aqui nesta casa, seja na casa de cada  um, haja festa com esse alimento que preparo, pacientemente, para todos e todas. 
Seja cada enxadada minha uma reza, seja cada rega uma bênção, seja cada adubo uma unção, seja o que nascer daqui motivo de comunhão. 
Amém. 

O direito de comer é sagrado. Estão ameaçando este direito dos brasileiros. Há muito tempo. Pecam. 

O novo ministro da saúde pediu demissão hoje. Ficou menos de um mês. A crise se agrava. Não há perspectiva de saída política. 

Deus, escute o clamor de seu povo escravizado e nos livre deste Faraó. 

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