Estou bem no meio do terreno que estou a preparar. Chove. Está escuro, o Sol acaba de se pôr.
Os pingos de chuva que suaves atravessam as copas das árvores no bosque que mantenho em pé, tendo capinado só o capim e a erva ao rés do chão, me fazem sonhar.
É bonito.
É relaxante.
É um sonho.
Imagino que bom seria se daqui a 100 dias, na colheita das batatas que serão plantadas na próxima terça (hoje é sexta), a pandemia estiver sob controle.
Teremos festa. Batata doce roxa assada nos galhos das árvores que podei ou nos muitos que achei no chão.
Tudo será grátis.
E se não houver sido controlada...
Bem, serão distribuídas na medida do possível por todos os membros da comunidade que estiverem em dificuldade financeira.
E haverá festas, cada uma em cada casa.
Inda me recordo do moço que pulou de alegria quando chegamos a ele com o que sobrou do almoço beneficente que fizemos em 1998, para a compra de um teclado Roland XP-80.
Ele tinha apenas um chuchu para si e os dois filhos. Provavelmente não comeria naquele dia.
Chegou a comida a ele. Era arroz, tutu, salpicão e pernil. Me lembro bem.
Ele recebeu agradecido, meio cabisbaixo e envergonhado.
Quando os irmãos estavam indo embora o viram pulando com os filhos, de alegria.
Não sei da vida de cada um daqueles irmãos. Num ponto do caminho que se bifurcou 8 anos atrás, decidiram que eu não poderia mais ser contado como irmão. Me expulsaram.
Eu cantava.
E dançava.
E fazia festas.
Nunca mais cantei, não com toda aquela festa e pompa.
Cantei e sigo cantando engasgado, somente em culto a Deus. Era assim também naquela época. Eu era o vocalista masculino principal de uma banda de louvores e tal.
Hoje sou quase um ministro ordenado, na mesma igreja que é de Cristo (só existe uma), não mais romano.
Eu não posso abençoar nada. Ainda não recebi das mãos de algum bispo, sucessor dos apóstolos, a ordem para tal.
Mas eu posso orar.
E oro. Toco a terra agora. E oro.
Que essas batatas e tudo o mais que crescer aqui sejam comidas em festa, tão ou mais grandiosas que aquela que o moço de quem nem sei o nome, nem nunca soube, fez com os filhos.
Seja aqui nesta casa, seja na casa de cada um, haja festa com esse alimento que preparo, pacientemente, para todos e todas.
Seja cada enxadada minha uma reza, seja cada rega uma bênção, seja cada adubo uma unção, seja o que nascer daqui motivo de comunhão.
Amém.
O direito de comer é sagrado. Estão ameaçando este direito dos brasileiros. Há muito tempo. Pecam.
O novo ministro da saúde pediu demissão hoje. Ficou menos de um mês. A crise se agrava. Não há perspectiva de saída política.
Deus, escute o clamor de seu povo escravizado e nos livre deste Faraó.
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