Não tenho nenhum sintoma de nada.
Mas tenho medo.
Não sei se o medo é sintoma de algo, e o tenho.
Medo do que virá, PRINCIPALMENTE... medo de o Antônio precisar ser internado por COVID-19 ou qualquer outra razão. Medo que ele passe minimamente mal, medo de ter ainda mais medo, medo de travar de medo.
Também tenho medo de a Gisele ter Covid e precisar ser isolada e eu ficar com antonio sozinho, bem como medo de ter de ficar isolado dos dois.
Medo.
Medo de acabar o dinheiro ou de não se ter de onde tirar dinheiro e sobrevir a fome.
Medo.
Medo de o Jair não cair nunca, a crise se agravar ou, pior e mais irônico, medo de outra pessoa subir ao poder por qualquer mecanismo, legal ou não, e a crise se agravar.
A crise sanitária me dá medo.
Quero fugir, não há para onde e nem como fugir sem encontrar ninguém no caminho.
Medo.
Estou com muito medo.
Não tenho conseguido trabalhar nessa semana, na tradução, o tanto que acredito que preciso. Não consigo me assentar e concentrar em escrever sem que pensamentos e sentimentos terríveis me invadam e eu fique com medo, paralisado.
A paralisia de não conseguir trabalhar aumenta o medo de faltar dinheiro pras coisas necessárias.
À noite, rezo com o Antonio. Temos rezado o terço. Ele segura um terço, eu outro, e a gente reza.
Ele agradece pelas coisas que passam na TV, pelos brinquedos que tem, pela mamãe, pelas pessoas que falam no Zoom e na Câmera do Whatsapp.
Eu agradeço por tudo isto também, e porque não nos faltou nada, e peço que algum cientista descubra uma cura e que as pessoas que governam a gente nos ajudem a superar isto tudo mais rápido.
Tenho medo, muito medo.
Ele dorme enquanto rezamos, uma ave maria após a outra... eu fico acordado até 1:00 no mínimo, com medo.
As sete e meia, oito horas, acordo. Ele acorda, eu acordo. Vemos TV... Ele vê TV e eu cozinho e ao meio dia saio, e venho trabalhar e não consigo, e quando vejo já são 15, 16, 18 horas e escrevi tão pouco... e me vem mais medo.
Desejo ardentemente que isto pare, que acabe, que se ache cura, vacina, que todos peguem me morram, qualquer coisa que elimine este foco de medo, este horizonte curto, esta desesperança.
Sigo tendo fé.
A minha fé, hoje, é submeter todo o meu medo a este ardente desejo e já fazer uma míníma festa no fundo de mim porque viveremos. E lembraremos desta época, e choraremos.
Mas não será por medo.