Tuesday, March 31, 2020

desisti

A grande novidade de hoje é que meu avô, que disse isso em 1960 e algo, segue correto :
"Ignore o presidente. O Brasil é tão caótico que só pode ser administrado da porta da casa pra dentro, em cada casa."
Não existe estado, não existe nação, não existe partido. 
Existe uma criança de 4 anos de idade brincando de "eu contra a rapa",  e é só. 
É surreal, muito surreal. 
2022 vem aí, espero que este período neurológico de nossa experiência não seja esquecido. 



Monday, March 30, 2020

Oh Beata Solitude, o sola beatitude

Traduz para a editora. 
Escreve para a revista.  
Escreve no devocional. 
Ajuda a revisar a redação da Anglican alliance. 
Te mando convite da junta nacional. 
Escreve no meu blog. 

E escrevo neste blog. 

Nunca tive tantos convites para fazer tanta coisa em tão pouco tempo. 

Talvez as pessoas estejam ansiosas para se tornarem superprodutivas durante a quarentena.  Não sei. 

Sei que quem me ensinou a frase do título hoje faz 89 anos. 
Parabéns, pai. 

Olhar pra si mesmo, e, sem poder sair pela porta, chegar a todos os lugares onde se é necessário. 

Este é o desafio da vida, sempre compreendido e vivido na solidão de cada um. 

A quarentena sempre foi necessária, mas estávamos surdos. 

Sunday, March 29, 2020

jogada ensaiada

31 de março tá vindo aí, e pela surrealidade das ações de hoje está difícil não acreditar numa jogada ensaiada, tipo sai capitão, entra general. 

Saturday, March 28, 2020

Paciência e saudade

Paciente, me assento no vaso sanitário fechado, meu filho ao colo, pra controlar uma crise desencadeada pela necessidade repentina de tomar iogurte. 
"Calma meu filho. Eu entendo você. Está com saudade do z15, da tia Pyu, da vovó. De fruta da cesta de Janaína, de andar pelas ruas do condomínio. Também estou. Mamãe também está. Mas estamos fazendo o melhor que podemos. Não está gostoso brincar com o dindinho os meninos? O pão da vovó que está aqui não é uma delícia? O papá da dinda não é ótimo? Vamos aproveitar isso, porque essas coisas boas também vão passar, junto com as que a gente não tá gostando. Tudo isso vai passar, e  a gente vai poder, depois, lembrar disso tudo como se fosse só uma sombra. Combinado? Você topa?"
Ele assente com a cabeça e lhe proponho um bom banho, um leite morno e dormirmos juntos.
Ele topa tão de bom grado que acredito, eu também, que algum tipo de pai falou comigo. 
Ele já está deitado. 
Vou até lá o acompanhar nos sonhos mais deliciosos possíveis. 
Há um mundo bom e possível escondido na experiência de querer de volta a vida que provavelmente não tornará igual. 
Aproveite. 

Friday, March 27, 2020

Antônio tem outra assadura. 
Brincar sem parar é tão bom que não há como parar para trocar fralda. 
Hoje houve carreata em Curitiba,  uba e outros lugares no Brasil. Um monte de gente pedindo para reabrir o comércio. 
Meu sogro, já aposentado e que poderia trabalhar em casa ou não trabalhar no período, decidiu que volta a trabalhar, usando transporte público, etc, na segunda.
O imperial College de Londres fez um estudo sobre o Brasil. Na melhor hipótese, morrem "apenas"  alguns milhares de pessoas.
Sigo tendo muito medo de pegar esse trem, de amigos pegarem, de gente por perto morrer, do Antônio ter isso marcado pra sempre na memória.
No condomínio de onde saímos fazem dez dias, os vizinhos seguem achando que estão de férias, visitando-se,  crianças brincando, nenhum cuidado.
Pelas minhas contas, uns 15 ou 16, dos 4 mil moradores, morrerão. 
Mortes evitáveis. 
O Brasil já conta 77 mortos oficiais, acredito que no domingo serão muito mais de cem. 
São Paulo está testando em massa, isso vai fazer o número de casos subir e talvez de uma boa acordada na galera. 
Jair Messias Bolsonaro por enquanto segue presidente. 
A perspectiva é que essa quarentena auto escolhida dure uns bons 90 dias. 
Ou mais. 
Tudo porque existe muita gente que não consegue ler um caralho de um gráfico direito e entender o mundo em que vivem. 
Precisamos de um estado de sítio, enfiar todo modo em casa, financiado pelo estado, e pelo jeito isso vai custar o cargo de Bolsonaro.  Ou a cabeça. 
É um pena. 

O molejo e o cipreste

Ao deitar para escrever, durmo rápido sobre o molejo
O som das molas rangendo dentro do colchão já experiente 
É na minha cabeça o som dos galhos do cipreste (Pinus elliottii,  meu pai sempre insistia em dizer) 
Roçando as bandanas da janela da sala em dia de ventania. 

Sobre o som do molejo hora cipreste 
Apago e sonho o jardim que não mais existe 
Substituído que foi por um piso
Sem cipreste
Sem nada 
Só um piso e um muro mais alto 
Na rua outrora tranquila
Agora carros e crianças e jovens da escola 

Onde antes apenas minha vida 
Perdida cercada por um jardim
Agora a vida de muitos
Pazinha e adubo na mão 
Novo jardim por plantar 
O cipreste já morto é hoje coluna dalgum equipamento feito outrora por nós três 
Eu meu pai meu irmão 
Eu coluna

Meu filho dorme, flor em botão 
Cresce vagaroso talvez se planejando cipreste 
Eu lhe roço com o corpanzil o molejo da cama outra 
Agora janela de sonhos
E nos bate a ventania. 

Lá fora, ciprestes morrem por pneumonia 
Sem saber se foi o golpe do vento 
Ou a chuva de iniquidades 
Ou puro azar e coincidência 

Sonhem,  florzinhas em botão 
Sonhem, plântulas divertidas 
Sonhem,  vossos pais se envergam agora
Não se quebrarão 

Mas se contudo forem atingidos pelos golpes da tempestade 
E tombarem 
No futuro de alguma forma serão coluna 
De novos modos de proteção 

Todo sonho bom 
É despertar na vida  

Wednesday, March 25, 2020

o genocida e a solidariedade

Quem você prefere ser? 
Quem não quer parar a economia ou quem quer ajudar os que estão em pior situação que tu? 
Esta semana ouvi umas 8 pessoas, tendo ajudado algumas a tomar a decisão de quarentena voluntária,  doei 1/4 do meu salário a pessoas mais pobres que eu para as ajudar a fazerem estoques, e construí uma rede de solidariedade e esperança para proteger o salário de 14 pessoas que precisam de trabalhar, além de ajudar alguns autônomos a pensarem maneiras de se sustentarem durante a crise, mediante trabalhos diferentes que podem ser feitos em home office. 
Além disso denunciei lugares de comércio aberto que furam a quarentena. 
E você? Fez o que? 
Bater panela é muito importante, mas a conversão passa pelo bolso e por conseguir semear esperança. 
Semeie, não desista. 
Vamos conseguir. 
Sigo em quarentena, trabalhando quase que a meio vapor (melhorei muito a produção nos últimos três dias)  e ansioso para que se inteirem os primeiros 21 dias e o presidente caia. 
Ele é um fascista que precisa ser removido a qualquer custo do planalto,  sob pena de a nossa situação ficar completamente insustentável. 
Beijos a todos e todas, cuide-se, confine-se, fique em casa, partilhe o que você é e do que você tem. 

Tuesday, March 24, 2020

a desesperança, a ilusão e o duplo pico

Durante Pandemias e surtos anteriores, uma coisa foi comum:
O Duplo Pico.

Duplo Pico é um fenômeno social.
As pessoas se sentem confiantes de que "ah, agora ficou bom, a doença não está tão braba assim, vou visitar meus parente ali na cidade vizinha afinal tem 18 dias que não os vejo e nada de ruim vai acontecer"
E...
Xablau!

A família que foi ou a que recebeu a visita é infectada, a parada de estrada onde se compra uma coxinha é infectada, os passageiros do ônibus são infectados a caminho da cidade histórica que foi fechada por 15 dias...
E tem um novo pico de crescimento, em geral PIOR que o primeiro, porque a ele se acumulam os que já estavam doentes e os novos infectados.

A Covid tem se demonstrado um vírus quase esperto. Demora muito a se manifestar como doença, mas já se replica e espalha numa fase sem sintomas graves ou até sem sintoma nenhum.

É daí que vem uma outra ilusão, que é a de que "nada de pior vai acontecer". Quando o duplo pico se desacelera, nova confiança devido ao isolamento de 25 dias ("agora vai, não é possível!") e...

Xablau!

Mais infectados, pequeno crescimento de número total de casos ativos e mais mortos, porque muitos doentes do segundo pico ainda estão internados e até a complicação mais mínima (uma necessidadezinha de oxigênio, digamos) torna-se capaz de matar, pois o sistema faliu.

Enquanto isso, todo mundo que saiu sem acreditar no primeiro pico, que pegou logo de cara e sarou, que saiu depois de 3 semanas internado e etc... seguirá com esperança.

Todo mundo que saiu pra rua , e que sai agora, tem tanta esperança na vida que acredita que nada de ruim vai acontecer, e que é bobagem ficar em casa, e que isso tudo é um exagero.

Só, minha gente, que esperança demais é ilusão.

A única esperança possível não é a de não ficar doente, mas a de não passar pra ninguém que não possa ser infectado.

E pra não ser infectado, é só não encontrar ninguém.

E pra não encontrar ninguém, é só se enfiar em casa e sossegar o facho.

Descomplique seu pensamento:

Fica em Casa!

PS

Um medo de não se sabe o que
se curou sozinho
Pois agora o medo tem nome e DNA
mora ao lado e quer entrar

O medo de que o medonho entre me prende
Te prende
Nos apreende
Mas tem gente que nada aprende

O medo da morte, origem de todo medo
Não é medo de morrer, é medo de não viver

A vida enclausurado é espécie de prisão
Mas melhor que não viver

Tudo passa, isso também passará, nada é permanente,
exceto o receio
de estar certo


Monday, March 23, 2020

Medo, futuro e imbecilidade

Com alguns amigos e amigas conversei hoje. 
Muitos apreensivos, um ou outro tranquilo, como o padre que fez nosso casamento, alguns desesperados, todos revoltados. 
Pra todo mundo uma certeza : parece que o governo vai tentar tapar o sol com a peneira,  como o Boris tentou no reino Unido. 
Traduzi, travei e destravei o computador duas vezes, e no final do dia viemos assistir um filme. 
A vida toda em suspenso. 
Na virada do dia meu amigo que é presbítero me vem com a ironia cruel e verdadeira :
A gente ta nesse medo danado, rezando por cura e vacinas, vamos ter de aguentar mais uma eternidade essa merda,  a vacina será desenvolvida, enfim disponibilizada e vai ter gente imbecil que não vai querer tomar. 
É esse monte de imbecil que elegeu e aplaude um governo federal que é inepto, liberal e cruel, e está botando na conta do povo o custo de anos de mal ou nenhum desenvolvimento do sus e dos problemas sociais graves do Brasil. 
Tudo isso vai cobrar um preço, muito muito alto. 
O boleto já foi impresso e chegará em até dez dias úteis. 

PS : tudo o que eu mais quero é estar errado, afinal toda esta previsão é estatística e coisas  improváveis acontecem o tempo todo. Talvez  seja bom esperar pelo melhor,   com pensamento positivo. 
O bom de pensamento positivo é que não resolve nada. =P

Da tal autonomia

Sou um trabalhador autônomo. 
Na verdade, esta expressão indica que ganho por produção diária, e que há uma grande e constante pressão sobre mim para que eu trabalhe todo dia em que é possível trabalhar. 
Antes da covid 19 chegar oficialmente a juiz de fora, eu já estava preocupado com a minha produtividade mensal, já que por conta de um resfriado, fiquei alguns dias sem trabalhar. 
Quando começou a se falar em possibilidade de o vírus já estar na cidade ou muito espalhado no Rio de Janeiro,  então, a coisa piorou bastante e minha produtividade caiu ainda mais. Era tensão o tempo todo. 
Daí a decisão : escapar fedendo. Melhor que tentar morrer cheiroso, porque escapar cheiroso ficou claro que seria impossível. 
É lógico que pensei em trabalho, em onde seria possível seguir trabalhando assim e o máximo que possível, e consegui dar esta sorte. 
Mas se não fosse possível, ou se alguma circunstância me forçar a ter de parar (a necessidade de ajudar alguém, a eventualidade de alguém próximo pegar, ou eu mesmo, ou o nível de estresse atingir um nível mais elevado ou...)  eu vou parar e vou falar pra quem eu sei que gosta de mim que precisamos de ajuda financeira, alimentar, psicológica, tudo. 
Eu escrevi isso para meus amigos e amigas que também são autônomos e autônomas, principalmente se lidam diretamente com os clientes (manicures, cabeleireiro, barbeiro, dentista, veterinário, psicanalista etc etc). 
Parem. 
O que eu conseguir ganhar estará à disposição, tenham certeza. 
O algo de muitos amigos também estará. 
É mais tranquilizador pensarmos que vamos ter conta pra pagar daqui a uns meses, em atraso, e nos virar, que fazer a conta de quantos por cento deixaremos de ganhar já que tantos por cento pegaram a doença, ainda mais se adicionarmos o fator "talvez de mim". 
Pare
Outra sociedade, baseada em solidariedade e ajuda mútua, está nascendo agora em meio a crise. 
Peça ajuda se já precisar da mesma agora...  E pare.
Não vale a pena arriscar não conseguir viver de bem consigo mesmo por se cobrar, lá no futuro, não ter conseguido viver com um pouco de dificuldade financeira agora. 
Converse com os seus mais íntimos, sem vergonha, organize-se e, por favor, pare o quanto antes. 
O que você vai descobrir, como eu, é que na verdade esta tal "autonomia" nunca existiu. E tudo bem... 

P. S. : postagem feita somente agora de madrugada porque graças a deus eu dormi com o celular na mão. Meu nível de estresse ontem ficou muito, muito baixo o tempo todo. Talvez seja até possível que eu possa dizer que fiquei tranquilo. E asseguro que não foi por ter conseguido dinheiro extra...  Foi por aceitar as circunstâncias atuais como elas são, sem medo e com esperança de mudanças em breve. 

Saturday, March 21, 2020

Há uma semana atrás

Há uma semana atrás eu dizia a meus irmãos que eu não acreditava na necessidade de quarentena porque em juiz de fora não havia casos confirmados e provavelmente não haveria. 
Há uma semana eu arrazoava que, em tempos de uma doença sabidamente tão grave, quem soubesse estar em risco não colocaria em risco mais pessoas. 
Há uma semana eu dizia que as pessoas não são tão irresponsáveis e loucas a ponto de se arriscarem em multidões ou em cidades já contaminadas. 
Então, naquela manhã, veio o primeiro confirmado e me pus em quarentena no dia seguinte, domingo à tarde. 
Há uma semana atrás eu comecei a perceber que, de fato, ninguém está nem aí. 
Hoje, diante do decreto pífio de Doria eu tive certeza. 
Diante da entrevista ridícula do presidente, tive certeza. 
Em face da realidade, eu agora vejo. 
Não somos gente aos olhos do sistema. 
Somos apenas uma perda de 3% de massa trabalhadora, que o capitalista há de repor com outro proletário. 
O liberalismo econômico precisa dar uma trégua, e rápido, de 40 dias para a vida. 
Depois, celebraremos todos. 
Não é possível que a conta do necessário estoque de comida e da morte seja colocada, toda, no boleto do trabalhador. 
Precisamos de um estado de sítio, de uma quarentena compulsória, que é o que sairá mais barato em todos os níveis a todos os envolvidos. 
Governantes pagarão uma conta mais alta, empresários idem, trabalhadores nem se fala, por cada dia de funcionamento "normal" da sociedade brasileira. 
É pra já, é pra logo, antes que Estados fechem divisas, municípios fechem limites e um caos político sem precedentes ocorra. 
Antes que 2 milhões morram. 
Antes que hábitos de consumo se alterem 
Antes que a vida se torne impossível. 
É pra já. 
Se puder, ponha-se  em quarentena. 
Se não puder, pressione para que ela se torne compulsória. 
Em geral, seu patrão não está nem aí pra seu bem estar. 

Desculpe se trago más notícias. 

Há uma semana atrás, eu também não acreditava nelas. 

Só se vive dentro de si



Ontem eu não postei porque a bateria do celular acabou, então hoje serão dois posts, sendo este primeiro o de ontem.

Consolei mais que fui consolado.

É lógico que tive meu momento de desespero e dor, mas ao longo do dia, de maneira muito concreta, consolei meus companheiros, minha esposa, meu filho.

As assaduras de Antonio melhoraram muito, com um remédio sofisticado e caríssimo: Maizena.

Além disto, trabalhei.

Minha produtividade como tradutor (este é meu trabalho atual: tradutor literário inglês - português, na área de Teologia) caiu muito, e isto terá um impacto no futuro médio, ou seja, daqui a uns 40 dias, mas me preocupo no momento menos com dinheiro. O que vier, virá.

Me preocupo mais em insistir em tentar estabelecer uma rotina viável, todos os dias, e daqui a pouco com certeza conseguirei retomar a produtividade habitual. Virá com o tempo.

Outra preocupação, que é a principal e essencial, a realmente basal, é ficar bem, hoje, aqui. Trabalhar as relações aqui, ser útil aqui, tentar focar o máximo possível aqui, que é o que escolhemos de mais imediatamente em muitas esferas da nossa vida.

À noite meu filho me olhou e disse: "quero ir embora, pro z15". Este é o número de nossa casa. Eu também quero. Disse a ele "papai também quer, mas vamos precisar ficar aqui mais um pouco. você está gostando de brincar com os amiguinhos?" SIIIIM!!! "está gostando do papá da dindinha?" SIIIIIM!!! "está gostando de dormir todos juntos numa cama pra nós três?" (julguem-me, psicólogos infantis!) SIIIIIM!! "Então vamos aproveitar isso?" VAMOOOOOSS!!!

O segredo, acho, é esse: aproveitar isto. Aproveitar as muitas coisas boas que se podem experimentar nesta experiência. Mas que se prenda a minha língua ao céu da boca se de ti, Z15, me esquecer.

Combinamos de a Sra L, mãe da Dindinha, ajudar com os hinos no culto que faremos por Live no Domingo de manhã.

Combinamos de bater panela como se não houvesse amanhã e a gente pudesse até amassar alguma hoje à noite.

E nos preocupamos com o lado de fora.

Tal e qual a Arca de Noé, a chuva já está caindo, cada vez mais forte, e as pessoas já se desesperam procurando a Arca. Mas as arcas já estão se isolando. Quem se isolou não abre mais...

E aí?

Aí é que nossa dor é ver a dor que pode vir pra amigos, parentes, conhecidos que a gente sabe que estão no processo clássico de negação e que estão cada vez em maior risco, seja de pegar a doença e ficarem eventualmente graves, seja de não pegarem mas verem de muito mais perto alguém pegar e ficar grave e pensar "putz... se eu tivesse me isolado dois dias antes..."

A tensão é insustentável, as válvulas não são muitas, porque nossa mente tenta se focar aqui, mas o coração visita, com saudade e pesar, os teimosos e os distantes. E aí?

Aí que o tempo é de fechar a arca, mesmo.

Esta não é a primeira "peste" que enfrentamos. Houve muitas. Somos os filhos, netos, bisnetos, descendentes de quem a elas sobreviveu.

Em muitas delas, quarentenas. Sobre muitas delas, histórias bonitas. Uma das mais antigas e influentes é a de Noé.

Numa leitura metaforica, pense na chuva como o corongão aí. Quarenta dias em casa, como ele na Arca. Faz muito sentido. Talvez, quem sabe, seja um relato poético e mitológico sobre necessárias quarentenas do fim do Neolítico, que é a época provável do mito que originou o texto bíblico sobre Noé.

O livrinho que o meu filho gosta... E onde se lê assim:

"Assim que as nuvens da tempestade foram ficando mais escuras
Noé abotoou a sua túnica pitoresca
Ele trabalhara dia e noite
para terminar a sua arca gigantesca

Ele chamou sua família e lhes disse para entrar
Depois, um casal de cada animal foi subindo na Arca sem parar

E então a chuva começou, e não parou nem por um instante
E embora a água continuasse subindo, a arca flutuava segura e constante

Depois de quarenta longos dias, o sol finalmente brilhou
um arco íris apareceu e a água se dissipou

Para provar que tudo estava bem, Noé soltou um pombo especial
Ele retornou com um galho, um sinal do amor de Deus, sem igual."

Viveremos uma inundação de mortos. Viveremos uma enchente de doentes. Viveremos o horror de saber que fulano, beltrano e cicrano estão mal em casa mas não tem mais médico, hospital nem nada parecido.

A questão toda é: Você quer ser quem tentou ajudar a chover por 30, 40, 60, 80, quantos dias?

Enfie-se em casa!

Vivamos este momento de medo e conforto mútuo entre os nossos!

Se o fizermos com qualidade e tranquilidade, teremos histórias bonitas pra contar, quem sabe até de um jeito tão marcante quanto essa do Noé, que se conta já há tanto tempo...

O lado de fora, seguirá sempre em tumulto. Inclusive o lado de fora da paisagem de pensamentos automáticos.

Mas dentro de casa, e dentro de si, e no fundo de si mesmo, cada um tem a oportunidade sincera, viável e curiosamente sempre disponível de encontrar um refúgio seguro, a realidade. A realidade é: estamos bem, escolhemos não nos arriscar doentes, estamos fazendo o que é possível (doações em dinheiro, acionamento de órgãos públicos, pressão sobre amigos e conhecidos, redes sociais) para colocar o máximo de pessoas que estiverem em nosso alcance também em quarentena.

Daqui a 40 anos, eu quero me assentar no nosso 14 de Nissan que não sei que dia será e dizer ao meu filho e netos "você sabe porque essa noite é especial? Esta é a noite em que finalmente pudemos voltar para nossa jerusalém, livres do auto cativeiro, aberta a porta da arca, nossa z15 celestial. Este é o dia em que recordamos o fim de nossa quarentena de x dias. Prevenimos, com aquela atitude voluntária de isolamento e por amor a todas as pessoas, cerca de 300 infecções e 40 mortes. E saímos inteiros e melhores de tudo aquilo. Foi difícil, mas também foi um prazer, uma alegria, vivermos isso juntos. você se lembra, filho?"

Quem ainda teima em ficar do lado de fora de cada casa-arca potencial, recomendo que saiba nadar, e que arranje um bom advogado perante a própria consciência, que em breve julgará com muita, mas muita exigência...

Thursday, March 19, 2020

Sobreviver, superar e viver

Hoje mandei uma mensagem a um amigo, que foi meu supervisor de pós doutorado. 
Marquei uma cachaça pra depois que tudo isso passar. 
A resposta dele foi realista, irônica e bem humorada. 
"espero sobreviver. Ainda ontem precisei tomar medidas fortes." E uma foto de um copo de cachaça. 
Ri e desejo ardente e profundamente o copo de cachaça futuro . 
O dia transcorreu tranquilo, numa rotina quase idêntica à de todos os meus dias. Trabalho doméstico pela manhã, tradução à tarde, trabalho doméstico de novo a partir das seis. 
Mas me interrompi muito. Primeiro, para conversar e conscientizar um amigo do condomínio sobre a necessidade urgente de isolamento e quarentena. 
Depois uma ligação sofrida com uma amiga maravilhosa, e a saudade corroendo o peito como pimenta corrói a língua da gente. 
Entre uma coisa e outra um vídeo fazendo graça sobre a desgraça. 
Sobre a ansiedade. 
Sobre a gente ignorar tudo que é ensinamento da classe médica sobre o que são os sintomas (tosse seca intensa que piora gradativamente, febre alta (em torno de 39 graus),  e outros sintomas parecidos com uma gripe. 
Mas para o ansioso, coceira no nariz é covid 19, unha encravada é também, assim como afta, azia, dor de coluna, sinusite alérgica, fome excessiva e zumbido no ouvido esquerdo. 
Pois o ansioso quer que acabe logo essa merda toda. E, se muito ansioso e sem válvula de escape, pra ele parecerá muito razoável pegar logo esse treco, nem que seja pra morrer de uma vez. 
Produzi /escrevi /traduzi um número muito baixo de páginas.
A cada dez minutos uma olhadela em algum site e o medo olha nos olhos pela fresta da janela da alma. 
Morreram mais 600 em algum lugar, outros 150 em outro, os trens de São Paulo (nos quais sempre adorei andar por sinal) seguem lotados, os números no Rio não param de aumentar, um modelo matemático prevê 2 milhões de mortos no Brasil em 60 dias. 
Meu amigo do condomínio me liga dizendo que está decidido a se quarentenar com a esposa  e filha, que por sinal é a melhor amiguinha de meu filho. A esposa foi minha caloura máxima na faculdade de teologia: quando eu estava no último período, ela estava no primeiro. 
Minha cunhada foi dispensada do trabalho, bem como minha sobrinha, bem como uma galera. 
A administração do condomínio manda um email dizendo que vai seguir atendendo, respondo aconselhando o home office, embora não tenham me pedido a mínima opinião. 
De olhos vendados,  o Brasil tem 600 e muitos infectados, pela regra inventada pelo governo todos eles internados (o Brasil só testa quem vai parar no hospital) e, como só 20% vai pro hospital, então temos 3000 casos com sintomas, além dos não sintomáticos. 
Uma grande merda. 
Por enquanto a doença não nos tocou, mas 2 pessoas da minha família estão isoladas e com sintomas, a vida segue loucamente. 
Numa epidemia de uma doença parasitária para a qual não exista defesa, 70% da população pega aquela coisa. Quero muito ser parte dos 30%. Não quero risco nenhum. 
E o dia já se foi. 
Bolo, confeitado esmeradamente pela comadre em cuja casa estou, porta nova na área dos cachorros (eu tenho muito medo da fêmea, que já me quase mordeu duas vezes nos últimos 2 anos, mas está isolada também e parece já estar de bem comigo), e então o choro do meu filho. 
Bumbum assado, na hora do banho muito incômodo  que o faz chorar. 
Choro en seguida, profusamente, porque ele sente dor. Na verdade, é uma irritação leve que amanhã terá passado, mas choro. 
Choro muito, sem medo nem vergonha. 
Quando ele nasceu, há dois anos e sete meses atrás, liguei para estes amigos,  que moravam em juiz de fora, no segundo ou terceiro dia de vida dele. "Venham pra cá pelo amor de Deus!" 
Eles foram, e choramos. 
Choramos porque aquilo tudo era assustador. Ser pai é assustador. 
Estou aqui porque sou pai. Pelo bem dele. Para que a gente e a maior parte dos nossos queridos sobreviva. 
Talvez eu tenha ajudado a salvar a vida de uma dúzia nesse processo, já. 
Ligo, explico porque se por em quarentena é a única opção viável e se a pessoa resistir a dado científico, toco e bato onde sei que dói. 
Porque quero que muitos consigam ser atendidos se precisarem, quer com covid quer com um braço quebrado durante este período de caos que está por vir nos sistemas de saúde. 
Superaremos estas dificuldades se nos mantivermos firmes na travessia desta difícil quarentena. 
Esta não é a primeira pandemia que nossa sociedade enfrenta.  Gripe espanhola, peste bubonica. De epidemias no Brasil, dengue, zica, cólera. 
A diferença é que esta exige confinamento, se assemelhando mais,  assim,  às pestes medievais e à gripe espanhola que as últimas epidemias brasileiras. 
Em todas, lições importantes foram aprendidas. 
Que nenhum exército é poderoso o suficiente, que todos deveriam ter os mesmos direitos, que lideres irresponsáveis agravam o problema, que nada vale mais a pena que estar saudável, que Deus sofre em nosso corpo, que eventualmente tudo passa. 
E que viver é doído. 
Viver é se preocupar com a assadura do bebê. 
Estamos determinados e esperamos sobreviver. 
Superamos no caminho nossos medos. 
Vivemos cada dor. 

A melhor coisa que aconteceu hoje foi a assadurazinha do meu filho. 
Porque amanhã terá sarado. 

Superaremos. E lidar com a covid será tão simples quanto tomar um comprimido de alguma coisa ou passar hipoglós. 

Viveremos além, e a experiência das mortes que logo virão em números fantasticamente altos nos lembrarão que somos todos ondas do mesmo mar. 

Viveremos, vivemos,  Choramos,  assamos, comemos, dormimos, acordamos, e enfim, inevitavelmente, nos encantarem os. 

Mas tão logo não. Quero ver meu filho sem fraldas e com menor risco de assadura. 

Valei-nos São José.  

Wednesday, March 18, 2020

Hoje é o final do dia 2.
23:55, pra ser mais exato.
Demorei tanto a escrever hoje porque tomamos uma decisão importante pela manhã, eu e minha esposa.
Com a pandemia se espalhando cada vez mais rápido, numa progressão geométrica com fator 1,8 a 2,0 no Brasil, na melhor das hipóteses, não estávamos entendendo o porque de tanta  gente na rua no nosso bairro.
Moramos num bairro / condomínio fechado do minha casa minha vida, que é composto de apartamentos térreos muito próximos. Parede de meia nos lados. 40metros quadrados.
É um ótimo lugar de viver, sério!
Tem segurança 24h, portaria com vigia 24h, ruas com asfalto impecável (algo raro  em juiz de fora!), campo de futebol, quadra, três praças, uma graça.
1403 casas, de dois ou três quartos, todas meiando parede.
É ótimo pra passear com nosso filho de dois anos,  e ele adora brincar na rua com os amiguinhos e vizinhos.
Mas
Não é tempo de ficar de siricutico na rua,  é tempo de se enfiar em casa.
É tempo de comprar por telefone.
É tempo de prestar atenção nos filhos, e não de deixar eles ficarem se tocando na rua.
É tempo de ter medo.
Mas as coisas estão muito, muito diferentes disso.
É criança brincando na rua, com os colegas na maior, filhos de pais que não  de isolaram e estão circulando. É vizinho dando três beijinhos entre si.
É tudo de errado.
E a janela do vizinho a 1 metro da sua, e a criança do vizinho tossindo no seu carro,  e...  Todo esforço de manter uma criança de dois anos recaindo sobre minha esposa, já que preciso continuar trabalhando por home office.
Ela é incrível. Uma mulher espetacular, linda, inteligente, rígida sem deixar de ser gentil, a companheira de uma vida.  A minha companheira.
Medimos e elencamos nossas possibilidades. Poderíamos ter pedido ao bispo e à comunidade para ficarmos na casa paroquial, que tem uma área um pouco maior que nossa casa, mas ela é vizinha à mata e úmida, muito úmida pra ser viável usar assim de repente.
Pensamos nos nossos pais.
Todos quatro são de grupos de risco, e ficar com eles nesta fase da epidemia seria muito irresponsável.
Além disso, minha sogra não está perfeitamente isolada porque há pessoas da casa circulando livremente,  e aumentariamos nosso risco pessoal.
Por fim, um amigo convidou pela terceira vez pra nos confinarmos juntos, pelo bem da saúde mental.
Conversamos no almoço hoje, dissemos um pro outro "vamos!"  e pegamos nodos mantimentos, nossos objetos pessoais, colocamos na Marília, que é a nossa Brasília 1975 e enfrentamos os 250 km que nos separam, em Juiz de Fora, de São João del Rey, de onde escrevo  agora.
Nos planejamos para um mínimo de 30 dias.
Ainda estamos preocupados com minha sogra e meus pais. Se o isolamento nosso e deles for mútuo e se nenhum sintoma aparecer, quem sabe não trocamos de casa de novo e aumentamos o grupo?
Este deserto que se delineia no horizonte é duro demais para atravessar sozinho, montamos uma caravana.
 Antônio dormiu duas das três horas de  viagem e já está dormindo de novo.
Quando chegamos aqui, ele se encontrou com o amiguinho e foi aquela festa. E ganhamos o que faltava pra tornar esta travessia mais suave : ganhamos assunto.  Ganhamos riso descontrolado. Ganhamos aquele choro sincero que acredita que o desespero vai acabar.
Ganhamos companheiros.

  • P. S. : a idéia foi do Antônio, que ontem à noite foi buscar a história preferida dele : arca de Noé. Noé não entrou sozinho naquele raio daquela arca. Meu conselho : enfrentaremos medo, morte, doença e caos. Tente enfrentar isso com alguém  que ama como companhia. 

Tuesday, March 17, 2020

Sobre a Esperança na Humanidade



Olá!
Se você se lembra e/ou me conhece desde 2012 no mínimo, você deve saber que esta plataforma blogger foi usada principalmente como uma espécie de diário durante o ano de 2012, especialmente de Junho em diante, quando estive em viagem na Índia, a princípio isolado mas logo descobrindo meios de minorar a solidão e isolamento, principalmente por novas relações tecidas com pessoas que estavam lá comigo.
Estou fazendo este blog porque penso que, de certa maneira, estou revivendo aquela mesma experiência de solidão, abandono, desesperança e até mesmo desespero que inicialmente me incitaram a escrever quando por lá.
É evidente que não tirarei nem este nem o outro blog do ar, pois crises futuras virão, então se você só o encontrou no futuro, lhe explico: hoje é dia 17 de Março de 2020, dia 01 do meu isolamento voluntário, junto com minha esposa e filho, para contribuirmos com o “achatamento da curva de crescimento epidêmico” da SARS-Cov-2, também conhecida como Covid-19; mas famosa mesmo como “O Corona Vírus”.
É uma epidemia, que está acontecendo agora e em ritmo bastante acelerado, no Brasil e no mundo. Na nossa cidade, Juiz de Fora, há por enquanto dois casos confirmados. Na época em que estamos, o Ministério da Saúde, contrariando uma orientação expressa da Organização Mundial da Saúde, optou por testar somente pessoas sintomáticas graves, por padrão. Também são testadas pessoas que chegam do exterior ou que tenham contato com quem já confirmou. Ou seja, embora haja 2 confirmados em Juiz de Fora, sendo um sintomático e outro assintomático filho dele, que foi testado 3 dias de reencontrar com o pai mas deu negativo, e 5 dias depois deu positivo… é evidente que o vírus esteja circulando, de maneira assintomática, em Juiz de Fora, principalmente porque já circula comunitariamente no Rio, que segue com grandes aglomerações, e de lá pra cá tem ônibus a cada duas horas, sempre lotados. E, mesmo se a gente achar que não é evidente, devemos por precaução considerar a circulação como verdadeira, já que não há testes!
Se você não entendeu o parágrafo anterior, leia com um pouco mais de atenção… este é o tipo de texto que você lê sozinho/a, então não vai dar pra te explicar.
Pois. Eu me decidi pelo isolamento no sábado último, 4 dias atrás, de manhã. Até a sexta eu era completamente contrário!
Isto porque não havia nenhum caso em Juiz de Fora e porque parecia não haver circulação comunitária do vírus, expressiva, em São Paulo e Rio de Janeiro, e também porque eu pensava até então que as pessoas eram razoáveis.
No entanto, fui convidado para ir a um local de culto (sou liderança religiosa em Juiz de Fora, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil) e me assustei com o número de pessoas presentes. Em época em que se deve evitar aglomerações, aquilo ali tava cheio demais, com 30 pessoas em um ambiente bastante fechado! Quase que fui embora, mas como me convidaram pra tomar assento na mesa, fiquei né… com muito receio e medo!
Pior, uma moça tossia abertamente vez por outra.
Pior ainda, quando houve uma oração, por sinal muito bonita e que encheu meu coração de paz e esperança, eu vi com o olho por detrás do olho Omolu, o orixá da peste, dançando naquele salão. Mas não estava em um local de culto Afro, leitores… o reconheci de outros carnavais, digamos assim.
Sim, senhoras e senhores, a macumba me abriu os olhos de algum jeito!
Eu o saudei mentalmente: “Atoto!” e não dei tanta importância, até que no dia seguinte um amigo meu, Pai-de-Santo na Baviera, Alemanha (pensa que chique!) disse que tinha orado pra Omolu.
Daí meu cérebro deu um curto circuito…
Fiz contas, peguei um dinheiro emprestado que precisaria pagar na segunda, no sábado de manhã, e fui as compras. Enchi o tanque da Brasília 1975 (praticamente uma sobrevivente de pandemias anteriores) de gasolina, comprei não perecíveis extras, tentei (e não consegui até agora) comprar mais gás de cozinha, calculei algo como 20 dias enfiado em casa e fiz o meu melhor.
Evidentemente, tudo caríssimo. Tudo é caro, atualmente, no Brasil, já há um tempo por sinal.
Gastei muitos reais. E orei desesperado: Deus, me ajuda a pagar essa pessoa na segunda!
A pessoa, no caso, é a diarista que contratei para limpar a casa paroquial de Juiz de Fora, onde funciona também meu home-office (devia chamar church-office, pois a casa paroquial só abre para cultos e porque moro em outro endereço, então aqui não é meu “home”), dois meses. Resolvi pagar dois meses a ela e botar ela pra dentro de casa o máximo possível. É uma moça jovem, 22 anos no máximo, desempregada, com marido da mesma idade também desempregado e um bebê de 5 meses. Como eu poderia me enfiar em casa e não olhar pra eles, que estão em posição social muito mais vulnerável?
Pois pedi a Deus por favor alguma coisa como solução e segui em frente.
Desde o sábado, tenho crises de choro, por medo da solidão, diárias. Ás vezes duas, três, quatro por dia.
No domingo um amigo veio nos visitar, e como o planejamento era “fechar as portas” assim que a minha esposa fosse dispensada do emprego e meu filho da escola (afinal não faria grande diferença a gente se “fechar” mas eles continuarem circulando) recebemos este amigo.
Não o víamos a dois meses, ele, a esposa, nosso afilhado e o irmãozinho. São grandes amigos.
Choramos no final da visita, por medo da solidão. Medo, horror, pavor.
Medo de ficarmos doentes, medo das crianças ficarem doentes, de nossos pais ficarem doentes, de algum de nós ficar grave e chegar a morrer (eu, minha esposa, minha sogra e meus pais somos grupo de risco, além deste amigo), medo de tudo e medo de nada.
Mas, sobretudo, medo de ter de entrar em casa e ter de olhar uns pros outros com medo dos vizinhos, do carteiro, do entregador de gás, de voltar ao mercado pra comprar algo, de cortar um dedo e ter de ir ao hospital, de… enfrentar as limitações que o isolamento voluntário significam!
Porque o isolamento voluntário é fruto da própria vontade, e a vontade é, de alguma maneira, um controle maduro do desejo.
O desejo, meu, sinceramente, é sair na rua cumprimentando todo mundo, dar carona pros vizinhos, brincar com as crianças, ir na casa dos amigos, pedir pizza, ir na casa da minha sogra e dos meus pais toda hora, fazer contato social a torto e a direito, ao vivo.
Mas a minha vontade é ficar em casa, vir ao home/church-office, trabalhar remotamente, voltar pra casa de novo, trazer esposa e filho pra cá uma vez ou outra, e vivermos este isolamento pelo bem de todos, inclusive das pessoas que não evitaram se aglomerar na sexta de Omolu e nem no domingo, quando o presidente da República, que tenho certeza que é dodóizinho da cabeça (pra dizer de forma cândida!) saiu do isolamento em que estava por suspeita de infecção com Le Coronga, foi pro meio da multidão e tirou selfie, apertou mãos, etc. Só faltou lamber a orelha das pessoas ou sei lá mais o que.
Ficar em casa, hoje, é um ato de amor à humanidade, ao que existe de melhor e de pior nela.
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Um ato de amor ao que existe de melhor é fácil de entender, afinal de contas é coisa e gente boa, como os profissionais de saúde que têm cuidado das pessoas, cujo maior símbolo é o médico que descobriu a doença e morreu dela aos 34 anos na China; como as pessoas voluntárias na Itália que se encapuzam da cabeça aos pés para fazerem compras para os idosos, que são a população mais vulnerável à doença; como os lisboetas que saem às varandas nos fins de tarde e madrugadas para aplaudirem os profissionais de saúde de Portugal enquanto estes vão ou vêm de seus trabalhos; como todos, menos um, dos diretores da casa de oração da sexta de Omolu, que já suspenderam seus cultos; como a senhora de 43 anos, mãe de dois ou três filhos, que tomou a primeira dose de vacina experimental contra o Coronavírus em Seattle (ou outra cidade, mas enfim, ela!); como todas e cada uma das pessoas que também estão em isolamento voluntário por todo o mundo; e como alguma alma santa que a esta altura já deve estar preparando algum jeito de criar um remédio pra esse trem.
A Covid-19 nos expõe e confronta, assim, com nossos maiores desejos e com nossa mais madura vontade.
Quem é guiado por desejo provavelmente não vai ter sérias complicações ao pegar o treco na praia de Copacabana esta tarde. Vai dar uns espirro ou nem isso e ficar tudo bem. Estas pessoas não têm, além de vontade, outra coisa que nos move:
Esperança.
Ficar em casa para tentar conter a epidemia e dar a chance a todos os que precisarem de serem tratados devidamente é esperança na humanidade, inclusive e principalmente no que ela tem de pior.
É esperança que os encarcerados, camada muito vulnerável e que só existe porque errou rude e tá cumprindo pena, não pegue a doença e sobreviva e seja recuperada e reinserida na sociedade. É esperança de que as pessoas percebam o valor do Sistema Único de Saúde, que tem se demonstrado essencial na mitigação dos problemas no Brasil. É esperança de que quem votou no Bolsonaro se arrependa ao observá-lo tão irresponvável e incompatível com o cargo. É esperança de que as pessoas compreendam que a Economia pode ser posta em segundo plano. É esperança de que outras pessoas que pagam outras pessoas como eu, que resolvi pagar adiantado a quem identifiquei como mais vulnerável, faça o mesmo ou ao menos não deixe de pagar. É esperança de que, no fim, a gente compreenda que não somos donos da vida, apenas estamos vivos.
É cedo, ainda, na história da epidemia do Brasil. 300 casos confirmados, talvez uns 1500 sem nenhum sintoma, não testados e subnotificados. Um morto.
Vai morrer mais gente enquanto não houver cura. Uns 3% de quem pegar. Vai adoecer mais gente. 60% a 70% da população vai pegar, enquanto não houver vacina.
Isto significa que aproximadamente de cada 20 pessoas que você conhece, 14 vão ficar doentes e 2 vão ficar muito doentes, nos próximos seis meses. De cada 50 pessoas do seu círculo de conhecidos, uma morrerá. De cada 5 pessoas idosas, uma se encantará.
Será um impacto emocional imenso, e temos medo dele. Eu tenho medo dele.
Mas hoje, eu quero, voluntariamente, acreditar na humanidade, eu quero ter esperança de que a gente tem jeito, eu quero olhar muito mais adiante no horizonte e dizer: depois deste vale sombrio e de outros três mais sombrios ainda, há uma planície ampla, verdejante, com pé de fruta pra todo lado, com abraço, com churrasco, com pinga e mel, com carnaval, com dança, com novela das 9 de volta. Depois desta escuridão que é nossa ignorância, há fila de gente nas UBSs pra tomar vacina todo ano. Depois deste cheiro de morte, há presídios vazios devido ao desencarceramento de parte da população condenada no Brasil. Depois destes itens alimentícios ao olho da cara, não há mais plano de saúde, mas o fortalecimento do SUS. Depois de tanta estupidez e torpeza, há empatia, simpatia, raciocínio e coração no Palácio do Planalto.
Depois deste caos que nosso Brasil se tornará, existe outro mais belo, mais bonito, mais possível, onde cada um sentirá prazer em tratar os semelhantes com a paciência que precisaremos ter com nossos familiares mais próximos ao longo de nosso confinamento.
Não se preocupe, o próximo texto será menor!
Coragem: conseguiremos passar por isto!
Vamos nos exercitar para estarmos próximos, para nos expressar, para nos encontrar de alguma maneira mesmo que à distância, para tornarmos a vida em confinamento e depois mais leve e possível.
Que Omolu, que é manifestação de Deus, nos abençoe ricamente para descobrirmos os oásis escondidos no deserto desta experiência.
Atoto.
Amém.

P.S.: Deus existe e ouve orações. Na segunda à tarde recebi uma doação em valor muito superior ao que tinha necessidade, voluntária, sem nenhum tipo de pedido, de uma pessoa que eu nem sei porque quis me dar (eu não contei a ela que tinha gasto dinheiro e nem quanto) que cobriu o empréstimo e ainda sobrou bastante pra comprar gás...