Thursday, March 19, 2020

Sobreviver, superar e viver

Hoje mandei uma mensagem a um amigo, que foi meu supervisor de pós doutorado. 
Marquei uma cachaça pra depois que tudo isso passar. 
A resposta dele foi realista, irônica e bem humorada. 
"espero sobreviver. Ainda ontem precisei tomar medidas fortes." E uma foto de um copo de cachaça. 
Ri e desejo ardente e profundamente o copo de cachaça futuro . 
O dia transcorreu tranquilo, numa rotina quase idêntica à de todos os meus dias. Trabalho doméstico pela manhã, tradução à tarde, trabalho doméstico de novo a partir das seis. 
Mas me interrompi muito. Primeiro, para conversar e conscientizar um amigo do condomínio sobre a necessidade urgente de isolamento e quarentena. 
Depois uma ligação sofrida com uma amiga maravilhosa, e a saudade corroendo o peito como pimenta corrói a língua da gente. 
Entre uma coisa e outra um vídeo fazendo graça sobre a desgraça. 
Sobre a ansiedade. 
Sobre a gente ignorar tudo que é ensinamento da classe médica sobre o que são os sintomas (tosse seca intensa que piora gradativamente, febre alta (em torno de 39 graus),  e outros sintomas parecidos com uma gripe. 
Mas para o ansioso, coceira no nariz é covid 19, unha encravada é também, assim como afta, azia, dor de coluna, sinusite alérgica, fome excessiva e zumbido no ouvido esquerdo. 
Pois o ansioso quer que acabe logo essa merda toda. E, se muito ansioso e sem válvula de escape, pra ele parecerá muito razoável pegar logo esse treco, nem que seja pra morrer de uma vez. 
Produzi /escrevi /traduzi um número muito baixo de páginas.
A cada dez minutos uma olhadela em algum site e o medo olha nos olhos pela fresta da janela da alma. 
Morreram mais 600 em algum lugar, outros 150 em outro, os trens de São Paulo (nos quais sempre adorei andar por sinal) seguem lotados, os números no Rio não param de aumentar, um modelo matemático prevê 2 milhões de mortos no Brasil em 60 dias. 
Meu amigo do condomínio me liga dizendo que está decidido a se quarentenar com a esposa  e filha, que por sinal é a melhor amiguinha de meu filho. A esposa foi minha caloura máxima na faculdade de teologia: quando eu estava no último período, ela estava no primeiro. 
Minha cunhada foi dispensada do trabalho, bem como minha sobrinha, bem como uma galera. 
A administração do condomínio manda um email dizendo que vai seguir atendendo, respondo aconselhando o home office, embora não tenham me pedido a mínima opinião. 
De olhos vendados,  o Brasil tem 600 e muitos infectados, pela regra inventada pelo governo todos eles internados (o Brasil só testa quem vai parar no hospital) e, como só 20% vai pro hospital, então temos 3000 casos com sintomas, além dos não sintomáticos. 
Uma grande merda. 
Por enquanto a doença não nos tocou, mas 2 pessoas da minha família estão isoladas e com sintomas, a vida segue loucamente. 
Numa epidemia de uma doença parasitária para a qual não exista defesa, 70% da população pega aquela coisa. Quero muito ser parte dos 30%. Não quero risco nenhum. 
E o dia já se foi. 
Bolo, confeitado esmeradamente pela comadre em cuja casa estou, porta nova na área dos cachorros (eu tenho muito medo da fêmea, que já me quase mordeu duas vezes nos últimos 2 anos, mas está isolada também e parece já estar de bem comigo), e então o choro do meu filho. 
Bumbum assado, na hora do banho muito incômodo  que o faz chorar. 
Choro en seguida, profusamente, porque ele sente dor. Na verdade, é uma irritação leve que amanhã terá passado, mas choro. 
Choro muito, sem medo nem vergonha. 
Quando ele nasceu, há dois anos e sete meses atrás, liguei para estes amigos,  que moravam em juiz de fora, no segundo ou terceiro dia de vida dele. "Venham pra cá pelo amor de Deus!" 
Eles foram, e choramos. 
Choramos porque aquilo tudo era assustador. Ser pai é assustador. 
Estou aqui porque sou pai. Pelo bem dele. Para que a gente e a maior parte dos nossos queridos sobreviva. 
Talvez eu tenha ajudado a salvar a vida de uma dúzia nesse processo, já. 
Ligo, explico porque se por em quarentena é a única opção viável e se a pessoa resistir a dado científico, toco e bato onde sei que dói. 
Porque quero que muitos consigam ser atendidos se precisarem, quer com covid quer com um braço quebrado durante este período de caos que está por vir nos sistemas de saúde. 
Superaremos estas dificuldades se nos mantivermos firmes na travessia desta difícil quarentena. 
Esta não é a primeira pandemia que nossa sociedade enfrenta.  Gripe espanhola, peste bubonica. De epidemias no Brasil, dengue, zica, cólera. 
A diferença é que esta exige confinamento, se assemelhando mais,  assim,  às pestes medievais e à gripe espanhola que as últimas epidemias brasileiras. 
Em todas, lições importantes foram aprendidas. 
Que nenhum exército é poderoso o suficiente, que todos deveriam ter os mesmos direitos, que lideres irresponsáveis agravam o problema, que nada vale mais a pena que estar saudável, que Deus sofre em nosso corpo, que eventualmente tudo passa. 
E que viver é doído. 
Viver é se preocupar com a assadura do bebê. 
Estamos determinados e esperamos sobreviver. 
Superamos no caminho nossos medos. 
Vivemos cada dor. 

A melhor coisa que aconteceu hoje foi a assadurazinha do meu filho. 
Porque amanhã terá sarado. 

Superaremos. E lidar com a covid será tão simples quanto tomar um comprimido de alguma coisa ou passar hipoglós. 

Viveremos além, e a experiência das mortes que logo virão em números fantasticamente altos nos lembrarão que somos todos ondas do mesmo mar. 

Viveremos, vivemos,  Choramos,  assamos, comemos, dormimos, acordamos, e enfim, inevitavelmente, nos encantarem os. 

Mas tão logo não. Quero ver meu filho sem fraldas e com menor risco de assadura. 

Valei-nos São José.  

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