Saturday, March 21, 2020
Só se vive dentro de si
Ontem eu não postei porque a bateria do celular acabou, então hoje serão dois posts, sendo este primeiro o de ontem.
Consolei mais que fui consolado.
É lógico que tive meu momento de desespero e dor, mas ao longo do dia, de maneira muito concreta, consolei meus companheiros, minha esposa, meu filho.
As assaduras de Antonio melhoraram muito, com um remédio sofisticado e caríssimo: Maizena.
Além disto, trabalhei.
Minha produtividade como tradutor (este é meu trabalho atual: tradutor literário inglês - português, na área de Teologia) caiu muito, e isto terá um impacto no futuro médio, ou seja, daqui a uns 40 dias, mas me preocupo no momento menos com dinheiro. O que vier, virá.
Me preocupo mais em insistir em tentar estabelecer uma rotina viável, todos os dias, e daqui a pouco com certeza conseguirei retomar a produtividade habitual. Virá com o tempo.
Outra preocupação, que é a principal e essencial, a realmente basal, é ficar bem, hoje, aqui. Trabalhar as relações aqui, ser útil aqui, tentar focar o máximo possível aqui, que é o que escolhemos de mais imediatamente em muitas esferas da nossa vida.
À noite meu filho me olhou e disse: "quero ir embora, pro z15". Este é o número de nossa casa. Eu também quero. Disse a ele "papai também quer, mas vamos precisar ficar aqui mais um pouco. você está gostando de brincar com os amiguinhos?" SIIIIM!!! "está gostando do papá da dindinha?" SIIIIIM!!! "está gostando de dormir todos juntos numa cama pra nós três?" (julguem-me, psicólogos infantis!) SIIIIIM!! "Então vamos aproveitar isso?" VAMOOOOOSS!!!
O segredo, acho, é esse: aproveitar isto. Aproveitar as muitas coisas boas que se podem experimentar nesta experiência. Mas que se prenda a minha língua ao céu da boca se de ti, Z15, me esquecer.
Combinamos de a Sra L, mãe da Dindinha, ajudar com os hinos no culto que faremos por Live no Domingo de manhã.
Combinamos de bater panela como se não houvesse amanhã e a gente pudesse até amassar alguma hoje à noite.
E nos preocupamos com o lado de fora.
Tal e qual a Arca de Noé, a chuva já está caindo, cada vez mais forte, e as pessoas já se desesperam procurando a Arca. Mas as arcas já estão se isolando. Quem se isolou não abre mais...
E aí?
Aí é que nossa dor é ver a dor que pode vir pra amigos, parentes, conhecidos que a gente sabe que estão no processo clássico de negação e que estão cada vez em maior risco, seja de pegar a doença e ficarem eventualmente graves, seja de não pegarem mas verem de muito mais perto alguém pegar e ficar grave e pensar "putz... se eu tivesse me isolado dois dias antes..."
A tensão é insustentável, as válvulas não são muitas, porque nossa mente tenta se focar aqui, mas o coração visita, com saudade e pesar, os teimosos e os distantes. E aí?
Aí que o tempo é de fechar a arca, mesmo.
Esta não é a primeira "peste" que enfrentamos. Houve muitas. Somos os filhos, netos, bisnetos, descendentes de quem a elas sobreviveu.
Em muitas delas, quarentenas. Sobre muitas delas, histórias bonitas. Uma das mais antigas e influentes é a de Noé.
Numa leitura metaforica, pense na chuva como o corongão aí. Quarenta dias em casa, como ele na Arca. Faz muito sentido. Talvez, quem sabe, seja um relato poético e mitológico sobre necessárias quarentenas do fim do Neolítico, que é a época provável do mito que originou o texto bíblico sobre Noé.
O livrinho que o meu filho gosta... E onde se lê assim:
"Assim que as nuvens da tempestade foram ficando mais escuras
Noé abotoou a sua túnica pitoresca
Ele trabalhara dia e noite
para terminar a sua arca gigantesca
Ele chamou sua família e lhes disse para entrar
Depois, um casal de cada animal foi subindo na Arca sem parar
E então a chuva começou, e não parou nem por um instante
E embora a água continuasse subindo, a arca flutuava segura e constante
Depois de quarenta longos dias, o sol finalmente brilhou
um arco íris apareceu e a água se dissipou
Para provar que tudo estava bem, Noé soltou um pombo especial
Ele retornou com um galho, um sinal do amor de Deus, sem igual."
Viveremos uma inundação de mortos. Viveremos uma enchente de doentes. Viveremos o horror de saber que fulano, beltrano e cicrano estão mal em casa mas não tem mais médico, hospital nem nada parecido.
A questão toda é: Você quer ser quem tentou ajudar a chover por 30, 40, 60, 80, quantos dias?
Enfie-se em casa!
Vivamos este momento de medo e conforto mútuo entre os nossos!
Se o fizermos com qualidade e tranquilidade, teremos histórias bonitas pra contar, quem sabe até de um jeito tão marcante quanto essa do Noé, que se conta já há tanto tempo...
O lado de fora, seguirá sempre em tumulto. Inclusive o lado de fora da paisagem de pensamentos automáticos.
Mas dentro de casa, e dentro de si, e no fundo de si mesmo, cada um tem a oportunidade sincera, viável e curiosamente sempre disponível de encontrar um refúgio seguro, a realidade. A realidade é: estamos bem, escolhemos não nos arriscar doentes, estamos fazendo o que é possível (doações em dinheiro, acionamento de órgãos públicos, pressão sobre amigos e conhecidos, redes sociais) para colocar o máximo de pessoas que estiverem em nosso alcance também em quarentena.
Daqui a 40 anos, eu quero me assentar no nosso 14 de Nissan que não sei que dia será e dizer ao meu filho e netos "você sabe porque essa noite é especial? Esta é a noite em que finalmente pudemos voltar para nossa jerusalém, livres do auto cativeiro, aberta a porta da arca, nossa z15 celestial. Este é o dia em que recordamos o fim de nossa quarentena de x dias. Prevenimos, com aquela atitude voluntária de isolamento e por amor a todas as pessoas, cerca de 300 infecções e 40 mortes. E saímos inteiros e melhores de tudo aquilo. Foi difícil, mas também foi um prazer, uma alegria, vivermos isso juntos. você se lembra, filho?"
Quem ainda teima em ficar do lado de fora de cada casa-arca potencial, recomendo que saiba nadar, e que arranje um bom advogado perante a própria consciência, que em breve julgará com muita, mas muita exigência...
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