Olá!
Se você se lembra
e/ou me conhece desde 2012 no mínimo, você deve saber que esta
plataforma blogger foi usada principalmente como uma espécie de
diário durante o ano de 2012, especialmente de Junho em diante,
quando estive em viagem na Índia, a princípio isolado mas logo
descobrindo meios de minorar a solidão e isolamento, principalmente
por novas relações tecidas com pessoas que estavam lá comigo.
Estou fazendo este
blog porque penso que, de certa maneira, estou revivendo aquela mesma
experiência de solidão, abandono, desesperança e até mesmo
desespero que inicialmente me incitaram a escrever quando por lá.
É evidente que não
tirarei nem este nem o outro blog do ar, pois crises futuras virão,
então se você só o encontrou no futuro, lhe explico: hoje é dia
17 de Março de 2020, dia 01 do meu isolamento voluntário, junto com
minha esposa e filho, para contribuirmos com o “achatamento da
curva de crescimento epidêmico” da SARS-Cov-2, também conhecida
como Covid-19; mas famosa mesmo como “O Corona Vírus”.
É uma epidemia, que
está acontecendo agora e em ritmo bastante acelerado, no Brasil e no
mundo. Na nossa cidade, Juiz de Fora, há por enquanto dois casos
confirmados. Na época em que estamos, o Ministério da Saúde,
contrariando uma orientação expressa da Organização Mundial da
Saúde, optou por testar somente pessoas sintomáticas graves, por
padrão. Também são testadas pessoas que chegam do exterior ou que
tenham contato com quem já confirmou. Ou seja, embora haja 2
confirmados em Juiz de Fora, sendo um sintomático e outro
assintomático filho dele, que foi testado 3 dias de reencontrar com
o pai mas deu negativo, e 5 dias depois deu positivo… é evidente
que o vírus esteja circulando, de maneira assintomática, em Juiz de
Fora, principalmente porque já circula comunitariamente no Rio, que
segue com grandes aglomerações, e de lá pra cá tem ônibus a cada
duas horas, sempre lotados. E, mesmo se a gente achar que não é
evidente, devemos por precaução considerar a circulação como
verdadeira, já que não há testes!
Se você não
entendeu o parágrafo anterior, leia com um pouco mais de atenção…
este é o tipo de texto que você lê sozinho/a, então não vai dar
pra te explicar.
Pois. Eu me decidi
pelo isolamento no sábado último, 4 dias atrás, de manhã. Até a
sexta eu era completamente contrário!
Isto porque não
havia nenhum caso em Juiz de Fora e porque parecia não haver
circulação comunitária do vírus, expressiva, em São Paulo e Rio
de Janeiro, e também porque eu pensava até então que as pessoas
eram razoáveis.
No entanto, fui
convidado para ir a um local de culto (sou liderança religiosa em
Juiz de Fora, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil) e me assustei
com o número de pessoas presentes. Em época em que se deve evitar
aglomerações, aquilo ali tava cheio demais, com 30 pessoas em um
ambiente bastante fechado! Quase que fui embora, mas como me
convidaram pra tomar assento na mesa, fiquei né… com muito receio
e medo!
Pior, uma moça
tossia abertamente vez por outra.
Pior ainda, quando
houve uma oração, por sinal muito bonita e que encheu meu coração
de paz e esperança, eu vi com o olho por detrás do olho Omolu, o
orixá da peste, dançando naquele salão. Mas não estava em um
local de culto Afro, leitores… o reconheci de outros carnavais,
digamos assim.
Sim, senhoras e
senhores, a macumba me abriu os olhos de algum jeito!
Eu o saudei
mentalmente: “Atoto!” e não dei tanta importância, até que no
dia seguinte um amigo meu, Pai-de-Santo na Baviera, Alemanha (pensa
que chique!) disse que tinha orado pra Omolu.
Daí meu cérebro
deu um curto circuito…
Fiz contas, peguei
um dinheiro emprestado que precisaria pagar na segunda, no sábado de
manhã, e fui as compras. Enchi o tanque da Brasília 1975
(praticamente uma sobrevivente de pandemias anteriores) de gasolina,
comprei não perecíveis extras, tentei (e não consegui até agora)
comprar mais gás de cozinha, calculei algo como 20 dias enfiado em
casa e fiz o meu melhor.
Evidentemente, tudo
caríssimo. Tudo é caro, atualmente, no Brasil, já há um tempo por
sinal.
Gastei muitos
reais. E orei desesperado: Deus, me ajuda a pagar essa pessoa na
segunda!
A pessoa, no caso, é
a diarista que contratei para limpar a casa paroquial de Juiz de
Fora, onde funciona também meu home-office (devia chamar
church-office, pois a casa paroquial só abre para cultos e porque
moro em outro endereço, então aqui não é meu “home”), dois
meses. Resolvi pagar dois meses a ela e botar ela pra dentro de casa
o máximo possível. É uma moça jovem, 22 anos no máximo,
desempregada, com marido da mesma idade também desempregado e um
bebê de 5 meses. Como eu poderia me enfiar em casa e não olhar pra
eles, que estão em posição social muito mais vulnerável?
Pois pedi a Deus por
favor alguma coisa como solução e segui em frente.
Desde o sábado,
tenho crises de choro, por medo da solidão, diárias. Ás vezes
duas, três, quatro por dia.
No domingo um amigo
veio nos visitar, e como o planejamento era “fechar as portas”
assim que a minha esposa fosse dispensada do emprego e meu filho da
escola (afinal não faria grande diferença a gente se “fechar”
mas eles continuarem circulando) recebemos este amigo.
Não o víamos a
dois meses, ele, a esposa, nosso afilhado e o irmãozinho. São
grandes amigos.
Choramos no final da
visita, por medo da solidão. Medo, horror, pavor.
Medo de ficarmos
doentes, medo das crianças ficarem doentes, de nossos pais ficarem
doentes, de algum de nós ficar grave e chegar a morrer (eu, minha
esposa, minha sogra e meus pais somos grupo de risco, além deste
amigo), medo de tudo e medo de nada.
Mas, sobretudo, medo
de ter de entrar em casa e ter de olhar uns pros outros com medo dos
vizinhos, do carteiro, do entregador de gás, de voltar ao mercado
pra comprar algo, de cortar um dedo e ter de ir ao hospital, de…
enfrentar as limitações que o isolamento voluntário significam!
Porque o isolamento
voluntário é fruto da própria vontade, e a vontade é, de alguma
maneira, um controle maduro do desejo.
O desejo, meu,
sinceramente, é sair na rua cumprimentando todo mundo, dar carona
pros vizinhos, brincar com as crianças, ir na casa dos amigos, pedir
pizza, ir na casa da minha sogra e dos meus pais toda hora, fazer
contato social a torto e a direito, ao vivo.
Mas a minha vontade
é ficar em casa, vir ao home/church-office, trabalhar remotamente,
voltar pra casa de novo, trazer esposa e filho pra cá uma vez ou
outra, e vivermos este isolamento pelo bem de todos, inclusive das
pessoas que não evitaram se aglomerar na sexta de Omolu e nem no
domingo, quando o presidente da República, que tenho certeza que é
dodóizinho da cabeça (pra dizer de forma cândida!) saiu do
isolamento em que estava por suspeita de infecção com Le Coronga,
foi pro meio da multidão e tirou selfie, apertou mãos, etc. Só
faltou lamber a orelha das pessoas ou sei lá mais o que.
Ficar em casa, hoje,
é um ato de amor à humanidade, ao que existe de melhor e de pior
nela.
Um ato de amor ao
que existe de melhor é fácil de entender, afinal de contas é coisa
e gente boa, como os profissionais de saúde que têm cuidado das
pessoas, cujo maior símbolo é o médico que descobriu a doença e
morreu dela aos 34 anos na China; como as pessoas voluntárias na
Itália que se encapuzam da cabeça aos pés para fazerem compras
para os idosos, que são a população mais vulnerável à doença;
como os lisboetas que saem às varandas nos fins de tarde e
madrugadas para aplaudirem os profissionais de saúde de Portugal
enquanto estes vão ou vêm de seus trabalhos; como todos, menos um,
dos diretores da casa de oração da sexta de Omolu, que já
suspenderam seus cultos; como a senhora de 43 anos, mãe de dois ou
três filhos, que tomou a primeira dose de vacina experimental contra
o Coronavírus em Seattle (ou outra cidade, mas enfim, ela!); como
todas e cada uma das pessoas que também estão em isolamento
voluntário por todo o mundo; e como alguma alma santa que a esta
altura já deve estar preparando algum jeito de criar um remédio pra
esse trem.
A Covid-19 nos expõe
e confronta, assim, com nossos maiores desejos e com nossa mais
madura vontade.
Quem é guiado por
desejo provavelmente não vai ter sérias complicações ao pegar o
treco na praia de Copacabana esta tarde. Vai dar uns espirro ou nem
isso e ficar tudo bem. Estas pessoas não têm, além de vontade,
outra coisa que nos move:
Esperança.
Ficar em casa para
tentar conter a epidemia e dar a chance a todos os que precisarem de
serem tratados devidamente é esperança na humanidade, inclusive e
principalmente no que ela tem de pior.
É esperança que os
encarcerados, camada muito vulnerável e que só existe porque errou
rude e tá cumprindo pena, não pegue a doença e sobreviva e seja
recuperada e reinserida na sociedade. É esperança de que as pessoas
percebam o valor do Sistema Único de Saúde, que tem se demonstrado
essencial na mitigação dos problemas no Brasil. É esperança de
que quem votou no Bolsonaro se arrependa ao observá-lo tão
irresponvável e incompatível com o cargo. É esperança de que as
pessoas compreendam que a Economia pode ser posta em segundo plano. É
esperança de que outras pessoas que pagam outras pessoas como eu,
que resolvi pagar adiantado a quem identifiquei como mais vulnerável,
faça o mesmo ou ao menos não deixe de pagar. É esperança de que,
no fim, a gente compreenda que não somos donos da vida, apenas
estamos vivos.
É cedo, ainda, na
história da epidemia do Brasil. 300 casos confirmados, talvez uns
1500 sem nenhum sintoma, não testados e subnotificados. Um morto.
Vai morrer mais
gente enquanto não houver cura. Uns 3% de quem pegar. Vai adoecer
mais gente. 60% a 70% da população vai pegar, enquanto não houver
vacina.
Isto significa que
aproximadamente de cada 20 pessoas que você conhece, 14 vão ficar
doentes e 2 vão ficar muito doentes, nos próximos seis meses. De
cada 50 pessoas do seu círculo de conhecidos, uma morrerá. De cada
5 pessoas idosas, uma se encantará.
Será um impacto
emocional imenso, e temos medo dele. Eu tenho medo dele.
Mas hoje, eu quero,
voluntariamente, acreditar na humanidade, eu quero ter esperança de
que a gente tem jeito, eu quero olhar muito mais adiante no horizonte
e dizer: depois deste vale sombrio e de outros três mais sombrios
ainda, há uma planície ampla, verdejante, com pé de fruta pra todo
lado, com abraço, com churrasco, com pinga e mel, com carnaval, com
dança, com novela das 9 de volta. Depois desta escuridão que é
nossa ignorância, há fila de gente nas UBSs pra tomar vacina todo
ano. Depois deste cheiro de morte, há presídios vazios devido ao
desencarceramento de parte da população condenada no Brasil. Depois
destes itens alimentícios ao olho da cara, não há mais plano de
saúde, mas o fortalecimento do SUS. Depois de tanta estupidez e
torpeza, há empatia, simpatia, raciocínio e coração no Palácio
do Planalto.
Depois deste caos
que nosso Brasil se tornará, existe outro mais belo, mais bonito,
mais possível, onde cada um sentirá prazer em tratar os semelhantes
com a paciência que precisaremos ter com nossos familiares mais
próximos ao longo de nosso confinamento.
Não se preocupe, o
próximo texto será menor!
Coragem:
conseguiremos passar por isto!
Vamos nos exercitar
para estarmos próximos, para nos expressar, para nos encontrar de
alguma maneira mesmo que à distância, para tornarmos a vida em
confinamento e depois mais leve e possível.
Que Omolu, que é
manifestação de Deus, nos abençoe ricamente para descobrirmos os
oásis escondidos no deserto desta experiência.
Atoto.
Amém.
P.S.: Deus existe e
ouve orações. Na segunda à tarde recebi uma doação em valor
muito superior ao que tinha necessidade, voluntária, sem nenhum tipo
de pedido, de uma pessoa que eu nem sei porque quis me dar (eu não
contei a ela que tinha gasto dinheiro e nem quanto) que cobriu o
empréstimo e ainda sobrou bastante pra comprar gás...
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