Tuesday, March 17, 2020

Sobre a Esperança na Humanidade



Olá!
Se você se lembra e/ou me conhece desde 2012 no mínimo, você deve saber que esta plataforma blogger foi usada principalmente como uma espécie de diário durante o ano de 2012, especialmente de Junho em diante, quando estive em viagem na Índia, a princípio isolado mas logo descobrindo meios de minorar a solidão e isolamento, principalmente por novas relações tecidas com pessoas que estavam lá comigo.
Estou fazendo este blog porque penso que, de certa maneira, estou revivendo aquela mesma experiência de solidão, abandono, desesperança e até mesmo desespero que inicialmente me incitaram a escrever quando por lá.
É evidente que não tirarei nem este nem o outro blog do ar, pois crises futuras virão, então se você só o encontrou no futuro, lhe explico: hoje é dia 17 de Março de 2020, dia 01 do meu isolamento voluntário, junto com minha esposa e filho, para contribuirmos com o “achatamento da curva de crescimento epidêmico” da SARS-Cov-2, também conhecida como Covid-19; mas famosa mesmo como “O Corona Vírus”.
É uma epidemia, que está acontecendo agora e em ritmo bastante acelerado, no Brasil e no mundo. Na nossa cidade, Juiz de Fora, há por enquanto dois casos confirmados. Na época em que estamos, o Ministério da Saúde, contrariando uma orientação expressa da Organização Mundial da Saúde, optou por testar somente pessoas sintomáticas graves, por padrão. Também são testadas pessoas que chegam do exterior ou que tenham contato com quem já confirmou. Ou seja, embora haja 2 confirmados em Juiz de Fora, sendo um sintomático e outro assintomático filho dele, que foi testado 3 dias de reencontrar com o pai mas deu negativo, e 5 dias depois deu positivo… é evidente que o vírus esteja circulando, de maneira assintomática, em Juiz de Fora, principalmente porque já circula comunitariamente no Rio, que segue com grandes aglomerações, e de lá pra cá tem ônibus a cada duas horas, sempre lotados. E, mesmo se a gente achar que não é evidente, devemos por precaução considerar a circulação como verdadeira, já que não há testes!
Se você não entendeu o parágrafo anterior, leia com um pouco mais de atenção… este é o tipo de texto que você lê sozinho/a, então não vai dar pra te explicar.
Pois. Eu me decidi pelo isolamento no sábado último, 4 dias atrás, de manhã. Até a sexta eu era completamente contrário!
Isto porque não havia nenhum caso em Juiz de Fora e porque parecia não haver circulação comunitária do vírus, expressiva, em São Paulo e Rio de Janeiro, e também porque eu pensava até então que as pessoas eram razoáveis.
No entanto, fui convidado para ir a um local de culto (sou liderança religiosa em Juiz de Fora, da Igreja Episcopal Anglicana do Brasil) e me assustei com o número de pessoas presentes. Em época em que se deve evitar aglomerações, aquilo ali tava cheio demais, com 30 pessoas em um ambiente bastante fechado! Quase que fui embora, mas como me convidaram pra tomar assento na mesa, fiquei né… com muito receio e medo!
Pior, uma moça tossia abertamente vez por outra.
Pior ainda, quando houve uma oração, por sinal muito bonita e que encheu meu coração de paz e esperança, eu vi com o olho por detrás do olho Omolu, o orixá da peste, dançando naquele salão. Mas não estava em um local de culto Afro, leitores… o reconheci de outros carnavais, digamos assim.
Sim, senhoras e senhores, a macumba me abriu os olhos de algum jeito!
Eu o saudei mentalmente: “Atoto!” e não dei tanta importância, até que no dia seguinte um amigo meu, Pai-de-Santo na Baviera, Alemanha (pensa que chique!) disse que tinha orado pra Omolu.
Daí meu cérebro deu um curto circuito…
Fiz contas, peguei um dinheiro emprestado que precisaria pagar na segunda, no sábado de manhã, e fui as compras. Enchi o tanque da Brasília 1975 (praticamente uma sobrevivente de pandemias anteriores) de gasolina, comprei não perecíveis extras, tentei (e não consegui até agora) comprar mais gás de cozinha, calculei algo como 20 dias enfiado em casa e fiz o meu melhor.
Evidentemente, tudo caríssimo. Tudo é caro, atualmente, no Brasil, já há um tempo por sinal.
Gastei muitos reais. E orei desesperado: Deus, me ajuda a pagar essa pessoa na segunda!
A pessoa, no caso, é a diarista que contratei para limpar a casa paroquial de Juiz de Fora, onde funciona também meu home-office (devia chamar church-office, pois a casa paroquial só abre para cultos e porque moro em outro endereço, então aqui não é meu “home”), dois meses. Resolvi pagar dois meses a ela e botar ela pra dentro de casa o máximo possível. É uma moça jovem, 22 anos no máximo, desempregada, com marido da mesma idade também desempregado e um bebê de 5 meses. Como eu poderia me enfiar em casa e não olhar pra eles, que estão em posição social muito mais vulnerável?
Pois pedi a Deus por favor alguma coisa como solução e segui em frente.
Desde o sábado, tenho crises de choro, por medo da solidão, diárias. Ás vezes duas, três, quatro por dia.
No domingo um amigo veio nos visitar, e como o planejamento era “fechar as portas” assim que a minha esposa fosse dispensada do emprego e meu filho da escola (afinal não faria grande diferença a gente se “fechar” mas eles continuarem circulando) recebemos este amigo.
Não o víamos a dois meses, ele, a esposa, nosso afilhado e o irmãozinho. São grandes amigos.
Choramos no final da visita, por medo da solidão. Medo, horror, pavor.
Medo de ficarmos doentes, medo das crianças ficarem doentes, de nossos pais ficarem doentes, de algum de nós ficar grave e chegar a morrer (eu, minha esposa, minha sogra e meus pais somos grupo de risco, além deste amigo), medo de tudo e medo de nada.
Mas, sobretudo, medo de ter de entrar em casa e ter de olhar uns pros outros com medo dos vizinhos, do carteiro, do entregador de gás, de voltar ao mercado pra comprar algo, de cortar um dedo e ter de ir ao hospital, de… enfrentar as limitações que o isolamento voluntário significam!
Porque o isolamento voluntário é fruto da própria vontade, e a vontade é, de alguma maneira, um controle maduro do desejo.
O desejo, meu, sinceramente, é sair na rua cumprimentando todo mundo, dar carona pros vizinhos, brincar com as crianças, ir na casa dos amigos, pedir pizza, ir na casa da minha sogra e dos meus pais toda hora, fazer contato social a torto e a direito, ao vivo.
Mas a minha vontade é ficar em casa, vir ao home/church-office, trabalhar remotamente, voltar pra casa de novo, trazer esposa e filho pra cá uma vez ou outra, e vivermos este isolamento pelo bem de todos, inclusive das pessoas que não evitaram se aglomerar na sexta de Omolu e nem no domingo, quando o presidente da República, que tenho certeza que é dodóizinho da cabeça (pra dizer de forma cândida!) saiu do isolamento em que estava por suspeita de infecção com Le Coronga, foi pro meio da multidão e tirou selfie, apertou mãos, etc. Só faltou lamber a orelha das pessoas ou sei lá mais o que.
Ficar em casa, hoje, é um ato de amor à humanidade, ao que existe de melhor e de pior nela.
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Um ato de amor ao que existe de melhor é fácil de entender, afinal de contas é coisa e gente boa, como os profissionais de saúde que têm cuidado das pessoas, cujo maior símbolo é o médico que descobriu a doença e morreu dela aos 34 anos na China; como as pessoas voluntárias na Itália que se encapuzam da cabeça aos pés para fazerem compras para os idosos, que são a população mais vulnerável à doença; como os lisboetas que saem às varandas nos fins de tarde e madrugadas para aplaudirem os profissionais de saúde de Portugal enquanto estes vão ou vêm de seus trabalhos; como todos, menos um, dos diretores da casa de oração da sexta de Omolu, que já suspenderam seus cultos; como a senhora de 43 anos, mãe de dois ou três filhos, que tomou a primeira dose de vacina experimental contra o Coronavírus em Seattle (ou outra cidade, mas enfim, ela!); como todas e cada uma das pessoas que também estão em isolamento voluntário por todo o mundo; e como alguma alma santa que a esta altura já deve estar preparando algum jeito de criar um remédio pra esse trem.
A Covid-19 nos expõe e confronta, assim, com nossos maiores desejos e com nossa mais madura vontade.
Quem é guiado por desejo provavelmente não vai ter sérias complicações ao pegar o treco na praia de Copacabana esta tarde. Vai dar uns espirro ou nem isso e ficar tudo bem. Estas pessoas não têm, além de vontade, outra coisa que nos move:
Esperança.
Ficar em casa para tentar conter a epidemia e dar a chance a todos os que precisarem de serem tratados devidamente é esperança na humanidade, inclusive e principalmente no que ela tem de pior.
É esperança que os encarcerados, camada muito vulnerável e que só existe porque errou rude e tá cumprindo pena, não pegue a doença e sobreviva e seja recuperada e reinserida na sociedade. É esperança de que as pessoas percebam o valor do Sistema Único de Saúde, que tem se demonstrado essencial na mitigação dos problemas no Brasil. É esperança de que quem votou no Bolsonaro se arrependa ao observá-lo tão irresponvável e incompatível com o cargo. É esperança de que as pessoas compreendam que a Economia pode ser posta em segundo plano. É esperança de que outras pessoas que pagam outras pessoas como eu, que resolvi pagar adiantado a quem identifiquei como mais vulnerável, faça o mesmo ou ao menos não deixe de pagar. É esperança de que, no fim, a gente compreenda que não somos donos da vida, apenas estamos vivos.
É cedo, ainda, na história da epidemia do Brasil. 300 casos confirmados, talvez uns 1500 sem nenhum sintoma, não testados e subnotificados. Um morto.
Vai morrer mais gente enquanto não houver cura. Uns 3% de quem pegar. Vai adoecer mais gente. 60% a 70% da população vai pegar, enquanto não houver vacina.
Isto significa que aproximadamente de cada 20 pessoas que você conhece, 14 vão ficar doentes e 2 vão ficar muito doentes, nos próximos seis meses. De cada 50 pessoas do seu círculo de conhecidos, uma morrerá. De cada 5 pessoas idosas, uma se encantará.
Será um impacto emocional imenso, e temos medo dele. Eu tenho medo dele.
Mas hoje, eu quero, voluntariamente, acreditar na humanidade, eu quero ter esperança de que a gente tem jeito, eu quero olhar muito mais adiante no horizonte e dizer: depois deste vale sombrio e de outros três mais sombrios ainda, há uma planície ampla, verdejante, com pé de fruta pra todo lado, com abraço, com churrasco, com pinga e mel, com carnaval, com dança, com novela das 9 de volta. Depois desta escuridão que é nossa ignorância, há fila de gente nas UBSs pra tomar vacina todo ano. Depois deste cheiro de morte, há presídios vazios devido ao desencarceramento de parte da população condenada no Brasil. Depois destes itens alimentícios ao olho da cara, não há mais plano de saúde, mas o fortalecimento do SUS. Depois de tanta estupidez e torpeza, há empatia, simpatia, raciocínio e coração no Palácio do Planalto.
Depois deste caos que nosso Brasil se tornará, existe outro mais belo, mais bonito, mais possível, onde cada um sentirá prazer em tratar os semelhantes com a paciência que precisaremos ter com nossos familiares mais próximos ao longo de nosso confinamento.
Não se preocupe, o próximo texto será menor!
Coragem: conseguiremos passar por isto!
Vamos nos exercitar para estarmos próximos, para nos expressar, para nos encontrar de alguma maneira mesmo que à distância, para tornarmos a vida em confinamento e depois mais leve e possível.
Que Omolu, que é manifestação de Deus, nos abençoe ricamente para descobrirmos os oásis escondidos no deserto desta experiência.
Atoto.
Amém.

P.S.: Deus existe e ouve orações. Na segunda à tarde recebi uma doação em valor muito superior ao que tinha necessidade, voluntária, sem nenhum tipo de pedido, de uma pessoa que eu nem sei porque quis me dar (eu não contei a ela que tinha gasto dinheiro e nem quanto) que cobriu o empréstimo e ainda sobrou bastante pra comprar gás...

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