Friday, March 27, 2020

O molejo e o cipreste

Ao deitar para escrever, durmo rápido sobre o molejo
O som das molas rangendo dentro do colchão já experiente 
É na minha cabeça o som dos galhos do cipreste (Pinus elliottii,  meu pai sempre insistia em dizer) 
Roçando as bandanas da janela da sala em dia de ventania. 

Sobre o som do molejo hora cipreste 
Apago e sonho o jardim que não mais existe 
Substituído que foi por um piso
Sem cipreste
Sem nada 
Só um piso e um muro mais alto 
Na rua outrora tranquila
Agora carros e crianças e jovens da escola 

Onde antes apenas minha vida 
Perdida cercada por um jardim
Agora a vida de muitos
Pazinha e adubo na mão 
Novo jardim por plantar 
O cipreste já morto é hoje coluna dalgum equipamento feito outrora por nós três 
Eu meu pai meu irmão 
Eu coluna

Meu filho dorme, flor em botão 
Cresce vagaroso talvez se planejando cipreste 
Eu lhe roço com o corpanzil o molejo da cama outra 
Agora janela de sonhos
E nos bate a ventania. 

Lá fora, ciprestes morrem por pneumonia 
Sem saber se foi o golpe do vento 
Ou a chuva de iniquidades 
Ou puro azar e coincidência 

Sonhem,  florzinhas em botão 
Sonhem, plântulas divertidas 
Sonhem,  vossos pais se envergam agora
Não se quebrarão 

Mas se contudo forem atingidos pelos golpes da tempestade 
E tombarem 
No futuro de alguma forma serão coluna 
De novos modos de proteção 

Todo sonho bom 
É despertar na vida  

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