23:55, pra ser mais exato.
Demorei tanto a escrever hoje porque tomamos uma decisão importante pela manhã, eu e minha esposa.
Com a pandemia se espalhando cada vez mais rápido, numa progressão geométrica com fator 1,8 a 2,0 no Brasil, na melhor das hipóteses, não estávamos entendendo o porque de tanta gente na rua no nosso bairro.
Moramos num bairro / condomínio fechado do minha casa minha vida, que é composto de apartamentos térreos muito próximos. Parede de meia nos lados. 40metros quadrados.
É um ótimo lugar de viver, sério!
Tem segurança 24h, portaria com vigia 24h, ruas com asfalto impecável (algo raro em juiz de fora!), campo de futebol, quadra, três praças, uma graça.
1403 casas, de dois ou três quartos, todas meiando parede.
É ótimo pra passear com nosso filho de dois anos, e ele adora brincar na rua com os amiguinhos e vizinhos.
Mas
Não é tempo de ficar de siricutico na rua, é tempo de se enfiar em casa.
É tempo de comprar por telefone.
É tempo de prestar atenção nos filhos, e não de deixar eles ficarem se tocando na rua.
É tempo de ter medo.
Mas as coisas estão muito, muito diferentes disso.
É criança brincando na rua, com os colegas na maior, filhos de pais que não de isolaram e estão circulando. É vizinho dando três beijinhos entre si.
É tudo de errado.
E a janela do vizinho a 1 metro da sua, e a criança do vizinho tossindo no seu carro, e... Todo esforço de manter uma criança de dois anos recaindo sobre minha esposa, já que preciso continuar trabalhando por home office.
Ela é incrível. Uma mulher espetacular, linda, inteligente, rígida sem deixar de ser gentil, a companheira de uma vida. A minha companheira.
Medimos e elencamos nossas possibilidades. Poderíamos ter pedido ao bispo e à comunidade para ficarmos na casa paroquial, que tem uma área um pouco maior que nossa casa, mas ela é vizinha à mata e úmida, muito úmida pra ser viável usar assim de repente.
Pensamos nos nossos pais.
Todos quatro são de grupos de risco, e ficar com eles nesta fase da epidemia seria muito irresponsável.
Além disso, minha sogra não está perfeitamente isolada porque há pessoas da casa circulando livremente, e aumentariamos nosso risco pessoal.
Por fim, um amigo convidou pela terceira vez pra nos confinarmos juntos, pelo bem da saúde mental.
Conversamos no almoço hoje, dissemos um pro outro "vamos!" e pegamos nodos mantimentos, nossos objetos pessoais, colocamos na Marília, que é a nossa Brasília 1975 e enfrentamos os 250 km que nos separam, em Juiz de Fora, de São João del Rey, de onde escrevo agora.
Nos planejamos para um mínimo de 30 dias.
Ainda estamos preocupados com minha sogra e meus pais. Se o isolamento nosso e deles for mútuo e se nenhum sintoma aparecer, quem sabe não trocamos de casa de novo e aumentamos o grupo?
Este deserto que se delineia no horizonte é duro demais para atravessar sozinho, montamos uma caravana.
Antônio dormiu duas das três horas de viagem e já está dormindo de novo.
Quando chegamos aqui, ele se encontrou com o amiguinho e foi aquela festa. E ganhamos o que faltava pra tornar esta travessia mais suave : ganhamos assunto. Ganhamos riso descontrolado. Ganhamos aquele choro sincero que acredita que o desespero vai acabar.
Ganhamos companheiros.
- P. S. : a idéia foi do Antônio, que ontem à noite foi buscar a história preferida dele : arca de Noé. Noé não entrou sozinho naquele raio daquela arca. Meu conselho : enfrentaremos medo, morte, doença e caos. Tente enfrentar isso com alguém que ama como companhia.
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