Thursday, April 30, 2020

último dia do mês

Hoje é o último dia do mês. 
Dia de correr pra arredondar texto e mandar pra editora. 
Dia de achar q o tempo é curto demais. 
Dia de fazer contas mentalmente e já pensar pra onde vai cada centavo. 
Dia de tensão aumentada. 
Dia em que sonho em poder trabalhar com outra coisa. 
Amanhã é dia de agradecer muito ao Cosmo por poder continuar trabalhando. 
Desde 25dias, trm sido dia de xingar o governo por conta desse tal de auxílio emergencial, simplesmente porque funciona muito precariamente. 
Pra nós aqui em casa seria um alívio importante. Corresponde a pelo menos 1/6 do nosso ganho mensal, serviria pra não deixar contas enrolarem de novo. Porque ficaram enroladas por 1 ano e assim que desenrolou, a pandemia começou a nos atingi e meu ganho, que tinha duvido muito, despertou. 
 Pra muita gente por aí é o único ganho que terão. 
Espero que estejam conseguindo. Pra elas é muito mais importante que pra nós. 
Aí lembro de como o Brasil é. De quem está no poder. 
Deus, por favor e a sério: nos salve desse novo faraó. 

Tuesday, April 28, 2020

coronga maroto

Resumo do dia: medo, o tempo todo, de ter algum coronguinha maroto pulado no meu cangote ontem. 
Se não fosse o Antônio me puxando pro doce mundo de brincadeiras dele o tempo todo, nem sei. 
Ele é realmente um barato. 
Sigo, ao que tudo indica, neurótico. 

Monday, April 27, 2020

mercado

Até hoje de manhã eu tinha impressão de que poderia vir a dar merda. 
Hoje saí, fui ao mercado pela primeira vez desde 14/03/2020.
Antes disso, saí de casa sim, claro. Passei os primeiros vinte e um dias na casa dos padrinhos do meu filho. 
Depois voltamos pra juiz de fora e fui um dia na casa de meus pais para consertar uma máquina de lavar roupa e pegar um computador emprestado pois o da Missão do Bom Samaritano queimou a placa mãe e tem Caixa pra fazer etc. 
Também dei duas voltas com meu filho de 2 anos e oito meses no quarteirão.
Duas voltas em 44 ou 45 dias. 
Ontem ele chorou porque queria ir na rua brincar com outras crianças, filhas de pais menos rígidos, mas não deixamos.
Ele se assentou numa cadeira na porta e ficou assistindo, com água na boca. Depois brincamos eu e ele,  e demos a nossa volta na rua etc. 
Como a casa paroquial de juiz de fora está vacante (o clérigo morreu tem uns meses,  e ela se tornou local de culto, mas agora está sem culto desde 16/03) eu vou lá, e levo  ele e a minha esposa comigo. 
É bom pra eles não ficarem o tempo todo em casa, e lá tá igualmente isolado, então não fere o isolamento. 
44 dias com dor no peito querendo ser menos consciente e deixar ele ir na rua brincar a vontade. 
44 dias me preparando psicologicamente e refazendo os planos e passos. 
44 dias de receio de ir à rua. 
44 dias fazendo compras por entrega de hortifruti e farmácia e só.  
44 dias sem ir na casa de algum vizinho de que gosto, e ja me vieram uns 4 na cabeça. 
44 dias.
Saí de calça e camisa de mangas compridas, máscara. 
Pus uma roupa de motoqueiro por cima pra ir no mercado. Na saída, ainda no estacionamento, tirei a sobre roupa e pus num saco de 100 litros que levei pra isso.
E lá dentro e pelas ruas pessoas sem máscara, com crianças.
Estou tranquilo que só terei pego com azar. Me protegi muito e contra o azar q preciso dar pra ter pego não existe nenhuma proteção.
Mas... CAR**HO!
Vocês não gostam dos filhos não? 
Deixe eles em casa. 
E use máscara!
Entro em casa, lavo tudo, ponho as sacolas de molho na maquina de lavar, passo álcool em gel nas embalagens que não dá pra lavar. 
Tomo banho, um copo de vinho com a linda esposa, com quem fiz aniversário de 6 anos de casamento ontem, me deito e tenho medo de ter pego essa merda. 
Esse medo vai durar 14 dias. 
Fecho os olhos e vejo Antônio na cadeirinha olhando pra rua e rindo de poder ver a rua. 
Que situação ruim. 
Que merda. 
Amanhã será o  dia 45 de isolamento. 
Outros vários virão. 
Me sinto privilegiado de poder passar estes dias com essa mulher incrível e essa criança maravilhosa. 
Espero q acabem, sinceramente. 
Quero viver a vida lá fora. 

Sunday, April 26, 2020

perplexo.

Li atentamente algumas matérias da política nacional e estadual.
Estou perplexo com a cara de pau de Jair Messias Bolsonaro e Romeu Zema. 
Perplexo. 
Não entenderam que, além de tudo, a perda de capital político para ambos será imensa. 
Que bom, e que pena. 
Deus dê ao povo a sabedoria de desobedecer os governantes que querem que trabalhem até a morte. 

Saturday, April 25, 2020

conserta-se robô.

Hoje resolvi ficar em casa. 
(kkkkkkkkkk) 
Daí acordei, fiz café, fiquei a toa, fiz almoço, deitei e dormi.
Depois acordamos, arrumei um driver de Windows 10 pra fazer funcionar o controlador midi (teclado) no notebook da mamãe. 
Antônio adorou. 
Aí a tela do notebook foi pra trás, apagou (a carcaça tá quebrada e não tô com certeza sobre se compramos ou não outra...) e peguei as ferramentas. 
Mas com o Antônio já tinha se distraído com alguma outra coisa, decidi tentar q sorte com o aspirador robótico.
Comprei o mesmo em 2018, ano de vaca gorda. Assim que a garantia passou, ele parou. 
E tava parado há uns seis meses...
Muita peça miúda. Muito elegante. Muito detector. 
Detector de giro, de angulação, de toque, de luz de...
E o que estava quebrado era o contato negativo do motor da roda  esquerda. 
Desmontei tudo. Uma linda caixa de redução, um outro conta giros. 
Arrumei a escova. Tive de emendar um pedaço de fio de ventilador lá dentro, estanhei e criei outro contato. 
E... Tá  ele ali, comendo poeira.
Uma brincadeira divertidissima. 
Tenho certeza, que, enquanto isso, o presidente e  seus coleguinhas fizeram merda. 

Friday, April 24, 2020

que dia!

Aqui em casa tudo correu bem. 
Fiz um almoço delícia,  um pão delícia, um café delícia. 
Antônio ficou na cozinha enquanto eu cozinhava, cozinhando comidas de massinha. 
De tarde fomos os três pra casa paroquial, eu trabalhei bem enquanto Antônio brincou bem, dormiu lá também por uma hora. 
De noite, as sete, voltamos e mais brincadeira, mas não participei porque estava com mais dor. 
A posição de dirigir na Brasília favorece a dor. Era a mesma coisa no palio. O fusca não dói nada. Mas não está operacional. 
Fiz compressa de agua quente na região da hérnia de disco, e para minha surpresa após o banho passei a sentir muito menos dor. 
Crise de hérnia de disco tem disso, as vezes. Aparece de repente, some de repente. Claro q não é um sumiço. É uma diminuição bem intensa. 
Existe uma dor basal que fica acompanhando o tempo todo... 
Mas se aqui em casa foi sossegado, em Brasília o negocio pegou fogo. 
Sérgio Moro, um juiz pra lá de controverso que havia se tornado ministro da justiça pediu demissão. 
O homem era mais popular que o jair, do mesmo jeito que o mandetta, demitido por jair semana passada, também era.
O governo está ruindo rápido. 
Difícil não comemorar, bem como não temer, afinal o vice é um general que apóia o regime de 64 etc. 
Mas ver jair mais e mais isolado dá  uma certa esperança esquisita de mudança. 
A coisa foi tão grave pra imagem do governo que a demissão tendo sido as 11, as 17 houve uma coletiva de imprensa na qual jair deu mil justificativas, todas sem pé nem cabeça. 
A noite, quase dormindo, uma bad passageira na qual a sigla da doença ao lado de mim mesmo ou do Antônio ou da Gisele tossindo. 
Mas espantei escrevendo isso aqui! 
E tô indo dormir com esperança renovada. 
O governo não tem sustentação, mas eu tenho. E vou fincar pré em minharesolução de não pegar esse trem por risco. Só mesmo por azar. 
Mas o importante é que hoje estamos bem. Nenhum sinal de nada. 
E amanhã já vem raiando..  
Duas atividades ontem:
Sentir dor e suas respectivas ações de manejo (gelo, água quente, alongamento, dipirona) 
Tradução. 

Wednesday, April 22, 2020

Plantando tomates com choques na coxa esquerda.

Acordei cedo pra cumprir o combinado com o Antonio ontem.
Plantar tomates nos vasos.

Separei a terra, misturei com palha, separamos as mudas nos vasos originais - umas 8.

Coloca terra, poe a muda, poe o tomateiro, poe mais terra. Pronto.

Ele se confunde um pouco entre não querer sujar as mãos e querer espalhar terra. Até que surge uma minhoca, grávida inclusive. Mostro pra ele os ovos em formação.

Ele pega a minhoca.

"É macia!"

Depois a pomos no vaso e ela vai se enterrando lentamente...

"Adeus, amiga minhoca! Adeus minhoca! Come seu papá"

E joga mais palha.

Separamos também as três mudas de taioba, já formadas, e replantamos na tina na qual ele tomava banho quando menor. Era uma banheira, depois esta tina, hoje em dia é no chuveiro.

Também plantamos jilós e uma das comidas preferidas - já que ele pede toda hora... - berinjela.

Jilós e berinjelas ficam um por vaso, o vaso em meia lua, duas meias luas se equilibram e ao mesmo tempo têm um efeito decorativo e as raízes não sinalizam entre si para se inibirem, pois estão separadas...

Para finalizar, as duas mudas de cebolinha remanescentes entre as taiobas.

Hora de limpar tudo, tirar a terra, tomar banho, trocar de roupa.

Hora do papai trabalhar. Quanto choro...!

Venho para aqui, trabalho, volto pra casa. Faço pizza, a tão desejada pizza, amada de todas as nações da terra. Ele come três fatias.

Mais tarde, deitamos juntos, ficamos nos olhando, meio adormecidos. Ele dorme primeiro. Quando o toco, acorda, então preciso andar com ele no colo pela sala enquanto rezo o terço e depois o depositar, com cuidado, em sua caminha, por volta de 0:20.

Desde ontem, o nervo ciático está dando choques. Peço exercícios de descompressão e alongamento, que são passados com carinho pela prima fisioterapeuta, pelo whatsapp.

Os faço, e dão realmente alívio. Enfrento as crises, em geral, com coragem e sem remédios, posto que no fundo os remédios não adiantam muito. O que adianta mesmo é passar o tempo e umas compressas de gelo, de água quente etc.

Sim, tenho hérnias de disco. Duas. E um abaulamento, e um pequeno bico de papagaio. Tão pequeno que deve ser de periquito australiano, no máximo.

Me assento no computador e constato que instalar o idioma e teclado gregos não soluciona o problema dos diacríticos de aspiração das vogais iniciais. O Windows é mesmo uma piada, e a página da Microsoft, que fabrica o negócio, não sabe resolver. Nem mesmo a ajuda em grego traz solução. No fim, uma informação de um usuário que, como eu, digita em grego no windows: "É um bug!"

Que bom. que previsível.

Penso longamente no Dr Tedros e seu anúncio, hoje, que a pandemia há de durar muito. Penso no que isto significa.

Penso no fato de o Sars-Cov-2 ter sido classificado pela comissão internacional de vírus como uma estirpe do Sars-Cov, da Epidemia de 2002. Não é uma nova espécie. Porque não há vacina para o Sars-Cov?

Percebo que é por falta de interesse econômico. O Sars-Cov original é transmissível (ou era) numa taxa muito menor que esta nova estirpe. Isto significou, à época, que os surtos foram controlados com medidas restritivas e, embora a mortalidade fosse bastante alta (cerca de 20%), depois de 5 ou 6 anos do fim da epidemia nos países que têm condição de fabricar uma vacina segura, que são os ricos, todos já tinham se esquecido dos rostos dos mortos.

Em 2016, quando a vacina chegou à fase de testes, cortaram o financiamento da mesma por falta de interesse econômico. Certo, a doença é realmente terrível e mata muita gente, mas porque investir alguns milhões de dólares nos ensaios da mesma se a transmissão pode ser mitigada com ações "mais baratas", como pequenas quarentenas locais ou municipais?

Então veio o Cov-2. Uma estirpe, uma mutação levemente diferente, que fez o vírus mais eficiente em trasmissão. Lógico, são mutações de viri de morcegos, com passagens, no caso do Cov, pelas civetas; e do Cov-2 pelos pangolins ou algum outro animal. A alta mutabilidade dos coronavirus dos morcegos ferradura não mudou, nem mudou o tráfico de animais silvestres, nem o desmatamento, nem nossa relação com o meio ambiente a partir da epidemia de 2002.

Agora correm feito loucos atrás de uma vacina, praticamente do zero, a não ser no caso de Israel, que está adaptando uma vacina para coronavirus aviário; e do mesmo instituto que em 2016 perdeu o financiamento para a vacina da sars, já tendo reconstruídos os passos e estando de novo no mesmo estádio que estava antes da perda do tal financiamento.

No mundo, mais de uma centena de vacinas em pesquisa. Delas, talvez 10% se provem minimamente eficazes. A chance de uma delas ser viável (isto é, segura, eficiente, barata, acessível e com possibilidade de produção em larguíssima escala) é de cerca de 1%, para o próximo ano ou ano e meio.

Se a vacina do Sars tivesse sido ensaiada, aprimorada, talvez estivesse disponível, e talvez inclusive fosse capaz de imunizar as duas estirpes. Uma vez que as duas estirpes são 80% ou mais semelhantes, então se as partes selecionadas pra se fazer a vacina fossem umas destas dos 80%... a covid-19 nunca teria se tornado um problema tão sério.

Penso no estresse de lavar os hortifruti. Se cada um plantasse tomates e berinjelas e jilós, cebolinhas e taiobas, laranjas e amoras e bananas (este ainda é um plano, exceto a banana tudo já está plantado)... acaso não haveria menos necessidade de comprar, mais segurança de se saber que é orgânico, mais prazer em ver crescer a própria comida, mais lógica em comer, de graça, o que a natureza dá... de graça?

Porque tanto pingo de ouro separando os terrenos, mas nenhum brócolis? Porque pata-de-vaca e quaresmeira, mas nenhuma amoreira ou macieira? Porque nosso modelo de habitação não inclui a obviedade de segurança alimentar, que não é algo tão complicado assim?

Porque todo mundo desesperado para trabalhar pros patrões de novo, e poder ir nas lojas, e poder... mas ninguém pensando que tem direito a ter o básico garantido pelo Estado?

Quando o dinheiro se tornou algo tão fundamental que nos fez esquecer a vida?

Não quero voltar pro mundo antes da pandemia. Não quero meeeeeixxxxxmo.

Quero mais tomateiros, e uma bananeira nanica, e couve e brócolis, e comer dos primeiros morangos que ainda virão, e muitos, pois o morangueiro se espalha agora pra casa do vizinho, sorrateiro, entre os malditos pingos de ouro.

Quero vida de verdade, com meu filho colhendo, de graça, a plantinha que plantamos de graça com as sementes que vieram de graça.

Quero um mundo de verdade, onde a saúde é colocada acima do dinheiro. Ora, o virus de morcegos seguiu existindo, todos SABIAM que um dia ele iria fazer o salto entre espécies de novo, e todos torciam para que fosse algo mais brando que a Sars, porque no fim torcer para algo mais brando é mais barato que fazer vacina pra uma doença que pode ser controlada de outros jeitos etc etc. A mesma lógica é aplicada pro Dengue. Não que não devamos tirar água dos pratinhos e tudo o mais, mas enquanto o Dengue for um vírus de país pobre, não vai ter vacina nunca. Quando invadir a Espanha, aí sim vamos ter a vacina maior rápido!

Eu tenho esperança no mundo melhor que pode brotar dessas sementes dos frutos podres do mundo que passou.

Toda relação com o mundo tem sementes. Sementes que podem ser de esperança, de conformidade ou de mudança. Eu já plantei as minhas. Meus tomates, em breve, estarão mudados para sempre.

E os seus?

Tuesday, April 21, 2020

fazia tempo que eu não via o Eduardo.

Um dia com promessa de stress. Esta foi minha impressão ao acordar. 
Pedi itens ao telefone, antialergicos na farmacia, óleo de rícino para o cabelo, frango e carne moída no açougue, ovos e tomate e queijo  no mercado (para enfim fazer a pizza que desejamos há 35 dias). 
Fiquei pensando em como seria chato lavar tudo. 
Montei uma estação de limpeza. Um balde de 18 litros,  com 10 de água e 270 ml de água sanitária e 50 de detergente, e a medida que as coisas  fossem chegando eu ia lavando e pá. 5 minutos  no balde, enxaguar em água corrente um a um, guardar tudo. Sem erro. Estresse controlado, planejado, viável. 
Elas foram chegando e foram sendo lavadas, e o almoço foi comido, o jantar feito antes das 14:00, junto com um bolo formigueiro (primeiro q fiz na vida, passou um pouco o tempo de forno mas ficou muito bom), hora de trabalhar. 
Notícia excelente pelo app do governo, meu auxílio emergencial saiu, o que significa um respiro  e tanto a mais. Da pra pagar quase tudo em dia agora, que luxo. 
Fui sozinho pra casa paroquial, Gisele ficou com Antônio, que dormia, esperando o mercado de queijos e tomates e ovos,  que eventualmente chegou e ficou lá na estação de limpeza. 
Mexi no computador que peguei para trabalhar no lugar do meu, que queimou a placa mãe. Um computador um pouco mais velho, mas ainda muito funcional.
Este é um pouco mais novo, mas menos funcional (te peguei!) :tem Windows. 
Depois que a gente aprende a mexer no Linux direito, ou no Mac OS pro gasto, passa a detestar o Windows. É lento, trava, exige uma memória descomunal, tudo é difícil de configurar, tem uns wizard que atrapalham muito configurações manuais.
Lógico, é a opinião de quem detesta automatismos ou precisa contornar os mesmos. 
No meu caso, preciso de teclados e exibição em grego e hebraico, além do português, pra conseguir trabalhar. E todos estes teclados devem ser configurados em alternância rápida para viabilizar trocar o idioma de digitação em um clique, o que o Windows não fazer sem um pacote de idiomas extra instalado. Até aí tudo bem. 
O problema é que ele exige o upgrade de uma série de outros componentes virtuais para os instalar. E para os instalar exige update do Windows sei lá o que. 
Sistemas Windows parecem não funcionar segundo a lógica de árvore de dependência. Parece q é um novelo onde tudo depende de tudo, e qualquer mínima alteração podem comprometer a viabilidade de trabalhar nele. Além dos arquivos que precisam ser baixados em cada uma destas atualizações de sistema serem muito pesados. Enfim, viva o Ubuntu. Mas não posso instalar Ubuntu nesse computador, a princípio... 
Depois de brigar com a maquina por um bom período da tarde, quando a estava desligando me liga minha irmã.
"meu carro parou no meio da rua. Você tem aquele negocio de ligar um carro no outro de bateria? "
Lógico q tenho. Item obrigatório pra quem tem carro velho. 
Lá fui eu em uma Brasília 75 fazer partida de emergência num etios 2014.
Minha irmã (esta , das 5) é médica. Tinha ido aferir pressão e glicose dos nossos pais, e a propósito tudo está bem.
Na bateria do etios, zinabre. Além disto, o cabo de partida de emergência estava no fusca e não na Brasília,  já eram 7 da noite e achamos melhor deixar o carro a noite na garagem. 
Eu estava sem máscara...  Não sai pra  ir à rua a princípio, não levei. 
Então peguei a camisa, fiz uma máscara, que até cobriu bem todo o rosto. 
E empurramos. 
Depois ela entrou na Brasília, abrimos os vidros e fui levar ela em casa.
No caminho, para cortar caminho, uma passagem por dentro do condomínio de outras pessoas. 
E lá estava eu, sem camisa com uma máscara parecendo aqueles revoltosos em penitenciária atravessando o condomínio. 
Mas o vigia, o Eduardo, me reconheceu. Ou reconheceu a Brasília.
E ficou ela em casa, que é perto da minha, e eu vim e tomei banho lavei ovos e queijos e tomates e jantei e dei jantar e banho e escova dentes e dormir e o menino não dormiu pelo menos até as 0:00 e vim pra sala porque ele começou a chutar e disse q os amigos saem de perto se a gente  bate neles. 
E o que era pra ser uma distância pedagógica de 5 minutos resultou em eu acordar perplexo as 4:30 e ver q ele dormiu também.
Deitei na cama.  Fiz uma retrospectiva de um dia de aventura. 
E conclui, antes de apagar de novo até as 8:50 : 
Fazia um tempo que eu não via o Eduardo. 

Sunday, April 19, 2020

celular velho

Ontem tive reunião no zoom. 
Toda vez que preciso usar o zoom no celular, preciso  desinstalar algo porque ele não aguenta. 
Então desinstalei o Blogger e o app do Bradesco. 
Foi uma boa reunião. 
A tarde coloquei a secadora lá fora, a cozinha ficou parecendo imensa. 
Depois fui comprar máscaras de um amigo, já que a partir de amanhã serão obrigatórias em juiz de fora. 
Hoje acordei tarde, muito tarde, às dez. 
Eu e Antônio fizemos almoço (ele realmente colocou arroz, água, tempero e óleo na panela elétrica e ligou, todo concentrado) e à tarde, pão (e ele realmente amassou o pão,  moldou etc). 
No fim da tarde, ele chorou muito pra sair um pouco, então como a rua  estava vazia, ele se sentou na bicicleta e eu o empurrei por dois quarteirões, ele ficou muito feliz. 
Cruzamos com pessoas e mantive uma distância de dois metros ou mais. Foi seguro. Foi possível. 
Fico as vezes pensando nos "e se...". 
Hoje pensei um pouco neles, agora à noite mais ainda. 
E se Antônio precisar ir no medico por alguma diarréia? E se eu tiver dor de dente? E se a Gisele ou eu ficarmos com covid? 
Tudo isto é bem assustador... 
Aí eu lembro que não há diarreia, não há dor de dente, não há covid por enquanto... 
O agora tem um poder avassalador sobre nosso delírio existencial. 
Esse delírio é o lugar onde moram nossas crenças sobre a gente, os demônios, tudo fruto de uma auto mitologia sobre nossas próprias vivências passadas. 
O problema é quando elas tomam o lugar do presente. 
Agora a noite, soube que uma amiga está com alguns sintomas mas não tem como pagar o teste por fora nem fazer na rede pública porque não está grave. 
Me propus a ajudar, pois o resultado, seja o que for, a colocaria no agora, no presente. Não saber se está  a permite sentir o sintoma típico até mesmo se não estiver com o sars-cov 2.
O não saber de si no aqui e agora é a origem do desconforto emocional, sempre...  
Assim penso, e num desafio à disposição de ficar acordado por horas, durmo... 

Friday, April 17, 2020

sobre a fazenda de mofo

Um dos motivos que fez a gente "fugir" de casa é o forte cheiro de guardado que ela tem. 

Temos livros. Muitos. 
O meu filho de dois anos e oito meses, computados hoje, deve ter mais de 50.
Ao todo, devemos cerca de 500, dos quais uns 400 estão aqui. Quando casamos, não pudemos trazer todos porque não cabia. Ficaram livros meus na casa de minha mãe e da minha esposa na de minha sogra. Um dia os resgataremos. 

Nossa sala tem 7x3 metros, e dividindo ela em 2 ambientes tem uma estante de nichos,  com os tais trezentos livros. 

Talvez não sejam trezentos, é um valor meio chutado. De qualquer jeito, em breve saberemos...mais alguns dias e todos serão manipulados, um a um.

Nosso espaço pra secar roupa é aberto, pra bater sol, e fica pra lá da sala. Tem uma cozinha de 3x3 metros, com uma parede quase toda de vidro de um lado (é uma varanda com uma porta de correr de 2,2 metros de altura, entenda-se),e esta porta da pra área. 

Quando chove, colocamos a roupa pra secar em uma secadora tipo tambor, na cozinha. Isso eleva a umidade da casa. 

Moramos em juiz de fora. 
Um casa sem ventilação excelente (por algum motivo, ela foi construída com essas janelas de correr que abrem vãos de 50 cm e estamos sem poder abrir as portas, da frente pela pandemia, de trás pra evitar o dengue...) em juiz de fora, cheia de livros e com a umidade alta mofa. 

Ponto. Simples assim. 

Já pensei em parar de secar roupa e usar todas molhadas ou jogar os livros fora (essa de maneira mais seria e mais de uma vez, escanearia todos  e depois jogava fora) ou ainda em fazer uma cobertura lá fora, mas nunca tinha feito. 

O cheiro de guardado faz tossir,  espirrar, e ficar achando que tá morrendo de covid, olhando a avaliação do coronaBR etc. 

Daí ontem eu não fui trabalhar de tarde não. Não com o livro que estou a traduzir... 

Pegamos uma fita métrica, tiramos umas medidas, e arrumamos um jeito de a secadora ir pro lado de fora da casa. Como chove ali, e tirar a roupa seca debaixo da chuva causa molhamento  dessa mesma roupa, virei hoje o toldo retrátil ali de fora de sentido. Ele cobria o centro da área pra poder secar alguma coisinha e tal, agora foi emendado (costurado com linha 10, essa de empinar pipa)  numa napa  antiga que cobria uma cabeceira que nos mesmos fizemos com uma porta e cobre 60-70 de toda a área. 

A cabeceira de porta existia sem uso há um ano e meio ou mais,  desde que compramos a cama nova, pois a antiga...  Mofava. 

Para a fazer,  tiramos a porta do banheiro, colocamos uma sanfonada, e cobrimos a convencional que havia lá com um pouco de espuma e uma napa que compramos numa loja onde o dono conhecia meu avô! Imagina q homem velhinho, posto q meu pai já tem 89 anos...  Tinha uns 95, e inclusive  e infelizmente já faleceu.

Ontem desfiz a cabeceira, pus a porta no lugar, tirei a sanfonada, cobrimos a porta de papel contact que existia aqui e ficou parecendo nova. 

Hoje costurei a napa na lona do toldo e o inverti, tendo a certeza de que quem o fabrica nunca precisou montar, pois a mola é algo enjoado de colocar na posição. 

E... 

Amanhã é limpar tudo ali fora, por a secadora e ver se a umidade minorada, aliada à limpeza de todos os livros, um a um (enfim saberemos quantos são!) e mais aquela passada de água sanitária beeeem diluída com detergente nas paredes, estantes etc vai melhorar o ar aqui dentro. 

Ou se o caso é mesmo de tirar os livros pra arejar um pouco a casa.

Ou fazer uma porta de tela pra poder abrir a porta da cozinha e arejar bem a casa. 

Ou tudo isto. 

Quem não entende que mexer na casa é mexer em si não percebe que casa parada cria mofo, e a gente parado cria medo. 

Areje-se, ensolare-se, recrie-se. 

Afinal,  a vida é bela.  

Thursday, April 16, 2020

o ministro da saúde caiu: dane-se...

Embora a demissão do ministro Mandetta, privatista que nos últimos meses vimos defendendo o sus e Bolsonarista que vimos divergir abertamente de Jair no manejo da crise,  traga preocupação no que diz respeito a manutenção da sociedade, e me deixe apreensivo de precisar ficar de cortinas fechadas para não ver os corpos dos vizinhos nas calçadas, na verdade... 
Bem, na verdade afeta a mim e a quem realmente é e está em isolamento ou quarentena muito pouco. 
Fiquem tranquilos. 
O stf já determinou que entes federados podem decretar calamidade e quarentena por si mesmos, então o que se torna mais importante é a opinião do prefeito. 
E ele é muito mais fácil de pressionar. 
Claro, todos queremos a cura e a vacina, torcemos para que se encontre rápido etc. 
Mas o horizonte que fica cada vez mais distinguivel é de mortes em breve, e muitas. 
Neste sentido e por isto, mesmo se o novo ministro e jair resolverem se empedernir e abrir tudo, os governadores e prefeitos podem simplesmente fechar. 
E,  nas cidades onde se abrir, se houver contaminados vai haver um estouro de mortes em breve. 
Jair perderá a pouca sustentação que ainda tem  em breve, pois o pacto federativo não suportará uma distância cada vez mais nítida entre Brasília e a vida real. 
Aí ele cai. 
Ou, em outra opção, o vírus muta, fica mansinho. Ou muta e mata mais. Ou descobrem uma vacina do nada. Ou um remédio. Enfim, num desses improváveis acontecimentos o provável erro de abertura que, se tomado, não faria a menor diferença na vida do cidadão brasileiro,  custará no mínimo a reeleição, pois já que Bolsonaro não manda mais nada, pra que tirar ele de lá? Deixa lá ele se queimar até o fim, os partidários dele vão  pra rua, abrem comércios de suas cidades e o escambau. 
E morrem de covid ou linchados. 
E aí Bolsonaro não ganha nunca mais, porque ganhou apertado, já perdeu parte do apoio e com a morte de mais uns 5-10% do eleitorado dele, aí que não volta mesmo. 
Ou seja,  dane-se. 
Deixa esse ministro falar o que quiser aí nos próximos  dias (por enquanto nem fez nada,  coitado) e se tudo abrir, vou continuar em quarentena. 
Minha quarentena sempre foi voluntária. 
Quero continuar em quarentena até que tudo se resolva de qualquer modo que signifique não haver mais risco.
O resto...  O resto que se dane, nunca me importei de ser um vizinho amado por todos  e não vai ser agora que vou entrar nesse surto. 

Wednesday, April 15, 2020

o Rosário

Quando o bispo, há cerca de dois anos, me enviou um link sobre um tal Rosário anglicano, quase dei um chilique. 
Falei que não queria saber daquilo, que era uma bobagem etc. 
Como a vida é tecida de ironias, acabei descobrindo, ao longo do meu aprendizado de mindfullness (sou um praticante meia boca, confesso) que o terço, esse latino de 150 contas pequenas, é algo fascinante. 
Não que eu nunca tivesse rezado um terço na vida. Rezei muitos. 
Achava até que estava "livre". 
Mas nunca gostei de terço. Porque tem de parar um tempo da vida pra isso e tal.
O que eu descobri é que o terço proporciona um objeto ritual interessante, com uma textura interessante, um movimento estereotipado interessante e uma respiração ritmada interessante, ao longo das "rezas"  de aves Marias ou de repetições de trechos da Bíblia ou  de qualquer coisa que sirva como oração. 
Hare Krishna pra uns 
Jesus filho de Deus vivo pra outros 
Aves Marias para a maioria. 
Você vai ali movimentando o objeto, sentindo as contas ou nozinhos e, quando da por si, tirou 5 minutos pra respirar pausadamente. 
Hoje em dia, pra pagar a língua, rezo o terço todo dia. 
Deixo pra vc o convite. 
Conheça uma modalidade de colar de contas de oração. O terço latino, o Rosário anglicano, o terço bizantino, o kombuskini, o terço budista, o terço muçulmano... E reze nele algo q te traga memórias ou esperanças boas. 
Pode ser "desejo a paz de todos" ou "estou no mundo porque minha mãe me amou"  ou qualquer oração do seu credo. 
Quem sabe não se torna um jeito fácil e viável de enfrentar os dias mais agitados, quando a gente não consegue parar? 
Comente aí se quiser tentar mas não tiver o objeto, que lhe ensino a fazer um com qualquer cordão, linha ou barbante,  e se não tiver cordão, ensino a tecer um também. 
Beijos de luz entre aves Marias.. 

Tuesday, April 14, 2020

estou feliz.

- O papai, o papaiê!
Entre massinhas, formas de massinhas uma de cada cor, escuto o chamado insistente. 
Vai dizer que sente saudade da escola, e pedir pra sair na rua e dizer que quer ir na vovó. 
Vai falar que está entediado, incomodado. 
Vai dizer que tem dor de garganta e tossir. 
Ah meu Deus, o que será que está por vir? Coragem. Você é pai! Seja o que vier, você tem obrigação de estar presente! 
- Oi filho. Você quer falar uma coisa? Pode falar. 
- Qué falá. 
- Fala, amorzinho.
- Eu tô feliz. 
E o dia, por conta desta informação às 9:00, foi ótimo.  

Monday, April 13, 2020

Sorria, você é desnecessárie.

As instruções sobre a quarentena são claras:

Só devem sair de casa para o trabalho os  trabalhadores de primeira necessidade, os realmente necessários durante este período de ameaça à vida e que não podem prestar seus serviços à distância. 

São eles:
Os de saúde, humana e animal ; 
Os de segurança pública: 
Os de alimentação;  e
Os de manutenção de infraestrutura básica.
 
Se você não é nenhum desses, você é desnecessário. 

Fiquei pensando em mim mesmo,  e contemplando minha inecessidade.

E cheguei à conclusão de que sim, neste contexto sou absolutamente desnecessário. 

Claro que não estou falando de mim como tradutor, afinal não saio de casa pra traduzir e já trabalhava de home/church office antes, mas me imaginando como professor ou líder religioso. 

Não vou salvar ninguém se sair daqui, convidado que precisaria ser (não estava dando aula em lugar nenhum, me contratem depois da pandemia!),  pra ensinar teologias das religiões ou noções de diálogo interreligioso ou liturgia.  Ou ainda, não adiantaria de nada mesmo eu abrir a capela amanhã a noite e fazer um culto bem bonito. 

Também não há necessidade de pintar uma parede no meio dessa zoa toda, a não ser que seja pra ela não mofar. Ou não há necessidade de cortar cabelo, pintar unha, vender roupa ou comprar roupa. 

Não há. 

A necessidade, em tempos de calamidade , é reduzida a comida, abrigo e saúde. 

Isto me pôs a pensar além...  E em tempos não calamitosos...? O que é realmente necessário? Acaso não são as mesmas coisas? 

Assim, minha cabeça hoje tem um nó : será que na verdade o ciclo de calamidades e quarentenas a elas associadas não servem para que a gente perceba o que é necessário e saia da quarentena pra vida quotidiana buscando novos jeitos de se relacionar com o mundo, colocando a necessidade como algo acima do supérfluo? 

Não é verdade que os recentes surtos de coronaviroses, a saber sars, mers e covid, bem como outras viroses como ebola, magdeburg, etc surgiram devido à invasão humana de florestas, possibilitando o trânsito entre espécies, associado à nossa grande mobilidade? 

Se não houvesse demanda por produtos amplamente desnecessários advindo de exploração florestal como carne de caça, madeira de lei (não existe nada necessário a que não possa ser feito de eucalipto e pinus), carnes aos montes justificando formação de novos pastos... Haveria essa proximidade? 

Se as pessoas tivessem garantidas suas necessidades básicas mediante a distribuição de riquezas,  acaso elas precisariam se lançar neste mundo tão perigoso da rede de tráfico de espécies? 

O medo da quarentena parece ter sua origem no medo do retorno ao necessário, ao "garantivel" pelos Estados modernos, pelo menos em suas constituições ... Mas também... 

É medo da necessidade de trabalhar melhor as relações intra e interpessoais, a percepção de si mesmo e do imediatamente próximo, num movimento excêntrico em direção às casas mais próximas, à quadra, rua, bairro, zona, cidade etc etc., mas centrada em mim : o que de mim é necessário e o que é supérfluo? 

Que jeitos de me relacionar com os outros são necessários, quais não são? 

É só atendendo essa urgência de sorrir pra si mesmo ao se perceber que há em nós muito desnecessário que a valorização do necessário, penso, aumentará. 

Daí, a relação com o outro deixará de ser de consumo do outro para me satisfazer, com a escola não mais de querer um produto (o conteúdo), mas de um local de formação de pessoas adultas cientes da escala de prioridades, da vizinhança como uma teia de trocas possíveis e não como incômodos... 

Aí sim nossas desnecessárias profissões farão todo o sentido e se farão necessárias, porque estarão tangidas pelo aspecto de necessidades de promoção de necessários, e não de alimentação de consumo desenfreado de si, do outro, da comunidade, da sociedade, das outras espécies  animais, da natureza, do Cosmo. 

Estaremos a serviço, e não mais nos servindo. 

Talvez você seja, como eu,  desnecessárix. 

Você já consegue sorrir só de pensar em quanto essenciais seremos, se a relação for posta acima do ego? 

Comece agora. Inventarie-se, inventarie suas necessidades imediatas, inventarie o que precisa pra quarentenar... Vivamos. 

Sorria, você é desnecessárie. 


A vida é muito, muito bela

Você já deve ter visto este filme, "a vida é bela". 
Se não viu, vale a pena ver. 
É a história de um judeu que é enviado com seu filho ao campo de concentração durante a segunda guerra mundial e faz de tudo para que o menino consiga passar por tudo aquilo com o máximo de leveza possível. 
Em geral, quem assiste o filme fica tão impressionado com o plano de frente da história, o pai e seu filho, que não percebe as camadas posteriores do enredo. 
Além da dupla, há o próprio campo, com os horrores próprios do campo. Por trás do campo, o horror de um país onde o campo está, e que está arrasado pela guerra. Por trás do país, a guerra. Por trás da guerra, a sociedade européia em suas tensões pré 1939.
Mas a camada mais profunda do enredo é a que realmente importa.
É  a vida, que é...  bela. 
A vida não é a circunstância em que se vive, mas a capacidade de superar a experiência da finitude. 
A vida é bela por que a vida do personagem do filme é a relação que ele trava com o filho. 
É a sensação dos cabelos do filho entre os dedos.
É o sorriso daquela criança. 
É a certeza de que tudo aquilo iria passar, e o pai queria que seu filho estivesse pronto para desfrutar. 
A vida, assim, é muito, muito bela. 
Neste domingo de Páscoa, despertei para a beleza inegável da vida, que mora entre meus dedos e o violão, também na conversa até alta madrugada com a esposa, no abraço do Antônio, na água que desce preguiçosa pelos telhados, nas plantas que florescem, em casa. 
Minha casa é o melhor lugar do mundo, e não estou preso aqui. 
Estou seguro vivendo a beleza da vida, que é inegável, mas escapa aos olhos desatentos do desespero. 
Boa Páscoa, dias bonitos virão, porque a beleza da vida permanecerá disponível. 

Saturday, April 11, 2020

Um pensamento solto sobre esperança ao fim de uma semana difícil


Esta semana foi difícil pra mim.


Começou pelo Domingo de Ramos, e dei conta que nunca, em 30 anos ou mais dos meus 39, teve algum que eu não fui à igreja.


Depois veio a semana santa mesmo, especialmente a quinta, sexta e hoje, sábado.


Dei conta que é a primeira vez em 12 ou 15 anos em que não estou em alguma comunidade presidindo ao menos uma das celebrações da Páscoa, do Tríduo.


Faço isto de presidir celebrações desde que ainda era membro da igreja romana, feito “Ministro da Palavra”, depois de ter terminado a faculdade de Teologia. Algo como desde os 25 anos.

Depois, na igreja episcopal, fui feito ministro em Outubro de 2013, e passei para esta comunidade que escolhi em Junho ou Julho. Em Abril o Maio daquele 2013, embora no coração já distante da hierarquia romana, presidi comunidades na Páscoa, por senso comunitário, por cuidado, por entender ali uma necessidade ou sei lá. Talvez por narcisismo. O narcisismo é um traço bastante comum em lideranças comunitárias, mas mediado e trabalhado por um senso de serviço e excentricidade, colocando-se fora do centro e o bem comum naquele mesmo centro. Mas é evidente que a posição de “líder comunitário”, religioso ou não, tem a ver com ao menos admitir e em certo nível gostar de estar ali, aparecendo um pouco. Não vejo nisso um problema, quando posto a serviço. Na verdade, vejo como um traço necessário.


Voltando à vaca fria, uma semana difícil. Além destas memórias, as novas experiências de voltar pra casa em meio a toda a confusão que está o mundo, observar que ainda tem gente demais nas ruas, recalcular mantimentos e materiais para re-estocagem, fazer contas depois do anúncio do parcelamento de pagamentos por parte da editora... tudo muito exigente!


Hoje, lendo um post de Facebook de Sua Graça, o Arcebispo de Cantuária, um parágrafo do mesmo me despertou: “o mundo para o qual os discípulos despertaram no evento da ressurreição não era mais o mesmo, e não sabemos pelo que esperavam.”


Achei belo, e vou um pouco além neste ensaio breve, dizendo que nem sei se esperavam algo, e que não souberam todos ao mesmo tempo que o Cristo estava vivo.


A igreja, ao longo da história, toma o Sábado Santo romanticamente como o tempo “no qual os discípulos aguardam junto ao sepulcro pacientemente a ressurreição de Jesus.”


Mas os relatos do Evangelho não dizem isto. Se olharmos com atenção, e fizermos uma tabela cuidadosa, poderemos ver que as mulheres que foram ao túmulo de Jesus não estavam esperando encontrar outra coisa senão ele lá, mortíssimo. Queriam lavar o corpo dele, e inclusive carregavam materiais para tal.


O mesmo pode ser dito dos discípulos, um pouco mais tarde, que avisados pelas discípulas correm ao túmulo para conferir se o que elas disseram era verdade. Ora, se estivessem, estes discípulos ou discípulas, esperando que ele ressuscitasse, não teriam se assustado ou espantado ou corrido para contar uns e umas aos outrxs. Simplesmente fariam assim: “Ó, ressuscitou mesmo! Igualzinho estávamos esperando!”


Mas mesmo as discípulas, as primeiras a encontrar o túmulo vazio, perguntam “Onde está o corpo do Meu Senhor?”


A mesma falta de expectativa pode ser observada nos discípulos de Emaús, que caminham no Evangelho de Lucas de volta pra casa. Eles vão embora, não querem saber de mais nada, e recebem a visita de Jesus que lhes explica que “era necessário que o Filho do Homem passasse por tudo aquilo para entrar em sua glória.” Eles entendem, talvez acreditam, sentem mesmo o coração arder... mas continuam em frente, em fuga, sem expectativa ou esperança. Só quando a partilha do pão, por Jesus, acontece, é que “seus olhos se abriram e eles reconheceram Jesus, dizendo um ao outro: ‘É o Senhor!’”... E voltam a Jerusalém, onde descobrem que Jesus estava vivo e tinha aparecido a Cefas (Pedro) e alguns dos discípulos.


Mas foram apenas alguns. Uma semana depois, pela cronologia agora de João (sim, estou fazendo um exercício de ajustar as cronologias, algo em desuso e chamado de “concordância evangélica”, mas que aqui e feito com cuidado tem seu valor) Jesus aparece a Tomé, que não acreditava, ainda, que Ele tivesse ressuscitado, e põe o dedo nas chagas, e se convence.


O ciclo das experiências de convencimento da ressurreição pelos discípulos mais íntimos, os Doze os Os Apóstolos, se encerra aí em Tomé no Evangelho de João em uma primeira leitura, embora o capítulo 21, se considerado em continuidade com a narrativa da negação de Pedro apague aquela fogueira da negação e ponha sobre ela brasa e peixe preparado (passou-se um tempo daquele fogaréu medroso de Pedro, digamos assim) para enfim este passar a perceber, ao lado do Discípulo Amado com o qual é colocado em contraste desde o capítulo 13, que Jesus não só ressuscitou, como ele sabia, mas que VOLTAR ATRÁS NÃO ERA POSSÍVEL.


A última aparição do ressuscitado, que em João se dá até mesmo depois da recepção do Espírito Santo, ou Pentecostes se assim quisermos dizer, é a tomada de consciência dos dois discípulos que textualmente representam as duas principais vertentes da igreja da época, de que voltar atrás não é possível, e nem fazer o caminho do outro é possível. Pedro precisa seguir em frente, sair de perto da fogueira da negação de que conhece Jesus e será fiel até o fim, enquanto o Discípulo Amado, tentado a fazer o mesmo caminho de Pedro, é alertado: “que te importa que eu queira que caminhos daqui em diante sejam diferentes?”


A Tradição ensina que os Apóstolos se dispersaram, à exceção de Tiago, que permaneceu em Jerusalém, mas vivendo de um jeito novo. A carta de Tiago é direcionada a toda a Diáspora Judia, e as pregações até o terceiro século do cristianismo sobre Tiago o têm como O Pilar da igreja oriental, além de sua carta manter viva e propor novos ensaios do gênero literário usado por Jesus, as parábolas, e inclusive é o único escrito do Novo Testamento que traz parábolas diferentes das de Jesus: Tiago, embora por alguém de má vontade possa dizer que ficou no mesmo lugar, passa a agir como líder jesuânico, escrevendo como Jesus escrevia, e se dirigindo a todo o Povo de Deus representado por Toda a Diáspora.


A vida nunca mais foi a mesma depois daquela sexta feira.


A experiência dos discípulos imediatos de Jesus não foi de esperar que Ele ressuscitasse, mas de compreender gradualmente a partir do anúncio que ele tinha saído daquele túmulo que Ele andava agora pelo mundo de uma maneira nova.


É muito infantil de nossa parte, agora que experimentamos o terror das mortes incontáveis, da desconfiança em relação aos vizinhos com quem anteriormente eu amava brincar, da impossibilidade de irmos às casas de nossos pais, de fazer contas de centavos e ter de decidir o que vamos parar de pagar, de entreter os filhos, de olhar as favelas e comunidades e perceber o quanto nossa omissão enquanto sociedade os condenou, desde sempre, à calamidade que se avizinha, os nossos fracos desgovernantes, o pavor de talvez termos de olhar pela janela o cadáver de vizinhos nas calçadas, o medo de se pensar no respirador, o horror a cada tosse por alergia ou rinite...


Não seria muita estupidez querermos voltar ao mundo e ao tipo de vida que nos trouxe exatamente a este desafio?


É preferível pensar que, como diz a bonita oração de pós comunhão do LOC 2015, aqui adaptada, lágrimas terão fim, toda pergunta terá resposta, pedras serão retiradas do caminho e um Novo Mundo será possível.


A nós caberá a tarefa, após a comunhão no cálice do Senhor por nós, que somos seu Corpo, a de ir às esquinas e beiras de caminho da Galiléia, das muitas Galiléias, anunciando que a vida nova nos precedeu e já está ali, feita semente, no meio daquela dor da ruptura e da germinação, da tranformação própria de vir-a-ser da semente, do parto de um Novo Modo de Ser.


Teremos pedras para tirar, lágrimas a enxugar, perguntas a responder, um jeito novo de caminhar.

Se não quisermos fazer a experiência de não saber o que fazer, se nos negarmos a experiência dos primeiros discípulos de nos sentirmos perdidos, de ter medo, de não ter nenhuma perspectiva de continuidade, não poderemos ser surpreendidos, como eles foram, pela notícia da ressurreição.


É preciso, desde já, nos comprometermos, em meio às dores de percebermos as injustiças e inquidades que nos trouxeram até esta esquina e beira de caminho, a mudar estas mesmas iniqüidades e injustiças. É preciso saber que ELE NOS PRECEDE!


Esta fala colocada na boca do Anjo e dentro do Túmulo, em Marcos, é claramente para a Igreja que veio imediatamente depois: Olha, vocês estão aí vivendo as perseguições do Império, sendo jogados aos leões, usados como tochas vivas e massacrados, mas em meio a esta dor de vocês todos agora serem excluídos da vida comum, está a vida verdadeira, a vida nova, a vida que não se acaba porque é capaz de se reinventar. Acreditem! Esperem! Tenham coragem de encarar a possibilidade de morrer de frente! Unam-se! Encoragem-se! Sejam solidários, comam juntos, coloquem suas coisas em comum, sustentem-se juntos, porque sozinhos não vão agüentar! Mas também não dêem bandeira construindo um templo enorme cheio de cristãos aglomerados, que aí é muito fácil de encontrar!

Cada um de vocês pode rezar em casa, cada um de vocês é sacerdote de sacerdotisa, cada um tenha certeza de que o que é importante de saber vai chegar a vocês por meio de cartas, ou de textos como este aqui...!


O novo que precisamos hoje, neste sentido, começa pelos velhos exercício de outrora, mas precisa, repito, precisa passar pela nossa falta de perspectiva. Ela é libertadora.


Então comece por se reinventar. Comece limpando o que você nunca limpou. Comece escrevendo um diário. Comece investindo nas suas relações dentro de casa. Comece se assumindo pra si mesmo, como é. Comece ligando pras pessoas (olha que beleza, na época de Marcos eles precisavam ver se por acaso aparecia, do nada, alguma carta de um tal de Paulo ou de pessoas que nunca viram pessoalmente...), comece sabendo que a vida não morre, ela só se reinventa.


Da mesma maneira que nos primeiros dias, a notícia e percepção da liberdade da vida nova virá aos poucos. Uns terão a graça de pegar e nem saber e ficar imunes, outros irão para uma cidade no Seridó e lá a vacina vai chegar antes da doença, outros se resguardarão em casa e conseguirão ser enfim imunizados relativamente pela imunização coletiva, que se Deus quiser vai levar um tempão porque estamos achatando a curva, outros se Encantarão pela doença atual ou outro motivo e viverão para sempre no meio de nós, feitos memória e saudade... mas a notícia virá, a cada um, a seu tempo. Todos gozaremos a possibilidade de viver de novo, normalmente, livremente.


Mas a pergunta é: Deste mundo libérrimo do qual sentimos saudade, o que era estrutura de morte e que precisa ser transformada em vida? Que tipo de vida viveremos no mundo, que talvez permaneça o mesmo? O que lutaremos para mudar? Quão forte é a vida que brota, tímida agora, de nossa experiência de espera paciente pelo tempo da semente?


Quem é você, afinal?


Alguém que sente falta dos chocolates ou alguém que espera ansiosx a Nova Vida do/no Senhor?


Neste Sábado de expectativa, espero contigo junto ao túmulo de tantas esperanças


Não tenhamos medo: elas ressurgirão, porque a Vida já nos precede, mesmo que só consigamos nos lembrar, como os nossos primeiros pais na fé, das imagens da Morte.

Porque Ele vive, podemos crer no Amanhã.

Friday, April 10, 2020

a solidão

Crianças de quatro famílias brincando, ruidosas, na rua. 
Vinte infecções (ou mais) em potencial.
É extremamente solitário e estressante ser cientista num país onde falta ensino básico de qualidade. 
Se as pessoas conseguissem compreender como funciona uma infecção viral ;
Ou a história das epidemias no Brasil;
Ou estatística rudimentar... 
Estariam en casa. 
Que triste. 

Thursday, April 9, 2020

danças na sala

Antônio entrou em casa ontem e cumprimentou os brinquedos, ligou o rádio e começou a dançar cantarolando músicas da Taylor Swift. 
Hoje brincou muito com suas panelinhas, carrinhos, bicicleta. 
Comeu tudo, com apetite, no almoço e jantar. 
Deus tetê de imaginação para seus coelhos de pelúcia. 
A tarde, dormimos os três. Muito. De 14 as 17.
Um cansaço físico, emocional, mental... 
Na verdade não  tomamos café hoje. Pode ser isso. Não sei. 
Amanhã o plano é irmos ao church office e dar uma olhada e tentar retomar a vida cotidiana conforme ela de nós exige de ser. 
Estamos felizes por estar em casa. 
Coisas boas acontecem o tempo todo. 
Risos, brincadeiras, bolo de chocolate de microondas, frango com limão e cebola. 
De manhã, uma saudade de desfez.
Janaina trouxe uma cesta de legumes e verduras e frutas. 
Que coisa boa é poder contar com amigos, longe e perto. 
De nossa temporada em São João, como alguma coisa fica e muita coisa vai, escolho que fica a saudade da brincadeira de cancela e velotrol. 
E ouvir sinos. 
E o cantar das molas do experiente colchão evocando infâncias. 
E o agradecimento por termos sido acolhidos quando estávamos mais frágeis, e a possibilidade de voltar quando já fortalecidos. 
De agora em diante, é aqui que a história acontece...  Por enquanto. 
Porque amanhã não existe. 

Wednesday, April 8, 2020

converse ou arrebente a si, a outros ou a todos

Converse com as pessoas com quem você está fazendo quarentena. 
Converse. 
Aprenda a conversar, se não tiver o costume. 
Fale o que está na sua cabeça, no seu coração, o que você quer, porque quer, como quer. 
Leve isso pra vida.... 
Senão, na quarentena ou fora dela, vai sobrar pra quem não ten nada com isso. 
Estamos de volta a juiz de fora, de improviso e sopetão. 
Todos seguimos bem, os que viemos e os que ficaram lá. 
E amanhã será um novo dia. 
Dessa vez, em casa.   

Tuesday, April 7, 2020

Três semanas

Hoje tem três semanas que estou fora de casa.
No degredo. 
Não dá pra dizer que está  suprima, mas já me acostumei com muita coisa. 
Amanhã vou colocar a bicicleta ergométrica que encontrei no porão em condição de uso. 
Sinto falta de ir para o trabalho de bicicleta. 
Sinto falta de sol, de vento na cara, de movimento.
Sinto falta de casa. 
Mas estou seguro, é o que importa. 
1030 casos em investigação en juiz de fora. 50 confirmados. 4 mortos. 
Agora é ladeira abaixo por lá, pelos próximos 25 dias... 
Não é hora boa pra voltar. 
Que pena. 

Monday, April 6, 2020

vem, que você sou eu

No telhado de minha casa carne,  a Pisadeira se acocora. 
Desce, Pisadeira, de cima do telhado... 
Senta aqui. 

A Pisadeira me olha travessa, olhar em chama, unhas compridas com sangue por debaixo. 
Uma monstra terrível e fantástica. 

Pisadeira voa em mim, me pisa o estômago. Respiração difícil. Me pisa o pescoço. Ânsia. Me pisa o peito. Alta pressão. 

Com uma dor assim no peito, um começo de angina, converso com ela, trincando dentes, com medo. 

Pisadeira, menina. Não faz isso. Não posso ter medo de ti. Afinal, você sou eu. 

Pisadeira, mulher, não faz assim. Não faz sentido você querer me maltratar me pondo medo sobre você, que é a parte de mim que não sei o que é. 

Pisadeira, meio defunta meio desperta, porque quer causar a mim dor, que é isso de mim que é você que se alegra quando todo o resto sente-se mal? 

Pisadeira, energia represada, grito contido, soco não dado, orgasmo não gozado, trabalho por mim não realizado. Seu nome é ansiedade. 

Seu nome é ansiedade de mim, por razoes mim, em mim. 

Seu nome é saudade de minha porção animal, Pisadeira, eu sei. 

Vem, Pisadeira. 

Vamos andar e fazer poema em prosa e crônica em verso. 

Vamos cantar Beatles. 

Vamos marcar pedalar na ergo métrica. 

Vamos que sua vontade de me assustar 

É o susto que tomo

Por ter medo e saudade de viver. 

Vivamos, doce Pisadeira. Vivamos. 

Vivo assim, conversando com a Ansiedade, que tenta se generalizar, tadinha, mas que é só criança pequena (id? Ego? Em si? Pulsão?) de mil mitologias de mim me lembrando que por mais que anseie eu voltar ao z15, a chave da vida em mim é nunca deixar sair, em forma de monstra, o que também sou, e tenho de não me esquecer de que sou. 

Sou carne 
Uma carne acuada 
Por responsabilidades e vírus 
Revestida com uma fina camada
De poesia. 

Sunday, April 5, 2020

Hoje Antônio fez cocô  no vaso pela primeira vez. 
De manhã eu tive medo e ansiedade e vi o culto presidido pelo bispo através da Internet. E
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Almoçamos uma coisa delicia de arroz lentilha farofa baroa frango, comemos maçã de sobremesa. E
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Li um bocado de matérias e artigos tentando prever e entender quanto tempo levará até podermos ir pra casa e
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Tive aquele aperto no peito ruim de quando a gente vai estourar de ansiedade e 
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Assisti YouTube com ele, Antônio. Galinha. Bita. Um gato falante,  Tom. E 
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Brincamos de velotrol e cancela e guarita e sempre a cabeça em casa e lá fora e nos cientistas e na crise e no meu pagamento que já foi ou terá de ser parcelado pela editora e
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Hosana ele é rei e é domingo de ramos e
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Hoje foi um dia tão difícil de processar, um domingo de ramos fora de casa, primeiro domingo de ramos em mais de quinze anos que não presidi um culto, q vida tão ao avesso, segura e ameaçada, calma em mar revolto. 
Que eu não quero pensar em mais nada.só que 
Hoje Antônio fez cocô no vaso pela primeira vez. 
Amanhã, ele lançará em mim outra luz. 
Não fosse meu filho, eu não estaria tentando. 
E hoje... 
Ah, você já sabe. 

Saturday, April 4, 2020

Todo mundo quer que o comércio reabra o mais rápido possível. Todo mundo quer, principalmente quem está se sentindo "preso" na quarentena. Mesmo que é, como eu, entusiasta da Quarentena, quer que reabra o comércio O MAIS RÁPIDO POSSÍVEL, por conta de emprego, salário, mobilidade, sensação de liberdade...
Mas entenda, amigo comerciante, direitista, Bolsonaro-friendly etc:
Primeiro respire fundo, Eu precisei respirar muito fundo antes de escrever, e é de enojar:
Olha a Globo.
A Globo tá desesperada querendo que se faça quarentena, topa até derrubar o presidente se for o caso (leia o Editorial do dia 1 de Abril de O Globo pra ver que não é exatamente isso, a propósito: tal editorial elogiou, e muito, o discurso do dia 31/03).
Mas o "jogo da Globo" não é razão humanitária.
O Grupo Globo pertence e representa o/ao empresariado mais rico e elitista do Brasil. São grandes sonegadores de impostos, os proprietários têm grandes propriedades, são a maior força midiática do Brasil, e em termos de TV Globo, TODA a arrecadação da Globo vem de anúncio.
Anúncio... desse assunto eu entendo pouco: fui roteirista de propagandas de TV, Internet e marketing de cinema. Anúncio funciona e é cobrado mediante TAXA DE CONVERSÃO.
Taxa de Conversão é uma relação entre o tanto que o veículo de mídia cobra para anunciar o seu produto ou serviço e quanto a mais seu serviço vende por conta daquele anúncio. Ou seja, se eu investir 12 mil mensais para colocar minha marca na abertura do MG2 de Juiz de Fora (este era o valor de tabela em 2017), quanto em reais eu vendo por mês a mais? 120 mil? 60 mil? Qual é o LUCRO que este anúncio pode me proporcionar? Esta é, grosseiramente explicada, a tal "taxa de conversão".
Quanto menos o anunciante vende, menos o anúncio vale. Assim, se o anunciante não vender NADA, o anúncio não vale NADA.
O SBT e a Record são de grupos que têm outros negócios. Eles têm uma rede de loterias e serviços bancários (o Baú da Felicidade) e a Igreja Universal do Reino de Deus, curiosamente colocados como serviços essenciais no decreto do presidente que apóiam e que lhes dá preferência. Isto significa que não terão uma perda acentuada no grupo caso a taxa de conversão caia. E a taxa de conversão do SBT é muito baixa. Eu trabalhei com programa no SBT. O valor de anuncio no mesmo horário era metade, 25%, 12% do valor da Globo. e mesmo assim não vendia; não é uma entrada substancial, para a TV em si. O SBT ou a Record não vivem do comércio girar, então não estão tão impactados quanto a Globo.
Agora junte os pontos. A Globo entende, sempre entendeu, de manipulação das massas. É manipulando as massas que ela faz o comércio girar, a marca vender, e você ser enganado.
A Globo está nessa pela grana, e a grana vem quando o comércio gira.
O desespero para que haja quarentena severa o mais rápido possível é porque analistas da Globo provavelmente já concluíram o óbvio: é a medida mais "barata" para o comércio, para o anunciante, e por consequência para ela mesma.
É PRECISO, de um ponto de vista financeiro e econômico; parar tudo o mais rápido possível,frear o consumo, travar a economia, e botar tudo na conta do governo, para conseguir reativar mais rápido depois e recuperar a economia.
Olhando para fora do Brasil, para países de economia muito mais sólida que o Brasil, como Itália, Portugal, Espanha, Reino Unido, China, Estados Unidos, França, Alemanha, Áustria, etc, todos pararam. Não pararam porque desistiram de ser capitalistas ou de adorar o rei Capital e angariar mais dinheiro o mais rápido possível. Pararam porque este é o jeito mais eficiente de salvar a economia: sacrificando um pouco agora.
Então planeje-se, seja empático com seus funcionários e clientes, reinvente-se e pare. Eu parei na empresa onde sou responsável por gestão e cobrança. É uma empresa que só funciona com relação pessoal direta, física.
Tenho certeza de que os clientes compreendem que é para a proteção dos grupos de risco, e muitos seguem pagando mesmo com as portas fechadas suas parcelas normalmente, por empatia criada.
Se eu abrir a empresa, com certeza alguém vai pegar covid, vai transmitir em casa, a culpa vai cair na empresa e vou perder muito mais cliente do que os 40-60% de perda que prevejo para os próximos meses.
Como eu fechei e você continua aberto, a conta de "onde foi que pegamos essa doença que passou para vovó e a matou" não vai vir aqui pra casa, mas vai pra sua.
Então, meu colega, seja inteligente, faça como os Marinho e os proprietários das grandes marcas mundiais, segura as ponta, negocia salário se for o caso da sua necessidade, evite demitir, faça propaganda de sua humanidade, mesmo se for tão falsa quanto a dos Marinho e FECHE AS PORTAS, E NÃO ENCHE o SACO PRA ABRIR DE NOVO ATÉ SER CONSIDERADO SEGURO PELO MINISTÉRIO DA SAÚDE, PELA OMS E ETC, QUE O POVO ESTÁ ADORANDO O MANDETTA E JÁ O QUEREM PRESIDENTE, O QUE EM MUITOS NÍVEIS E DE DIFERENTES FORMAS É UM ABSURDO!
Agora, se sua empresa é mal calculada, sua margem de lucro sempre foi baixa e você não tem lastro pra segurar nem 2 meses sem entrar grana aí, fecha de uma vez, que você já tava pra quebrar de todo jeito.
Beijos capitalistas de luz!

Friday, April 3, 2020

Há espectros fora e dentro 
Os de fora nada podem 
Os de dentro querem apenas um chá com biscoitos 
Um pouco de carinho 
E um abraço apertado 

Os de fora são 
Desemprego 
Redução salarial 
Caos funerário 
Angústia respiratória 

Os de dentro 
Falta de auto cuidado 
Violência familiar 
Diarréia por fruta estragada 
Caos interior
Angústia existencial severa

Os de fora são exorcizàveis
Os de dentro são quem você é. 

Não vale a pena perder a oportunidade de aceitar quem a gente é e viver bem com isso...   

Thursday, April 2, 2020

tanto pra fazer

Cantar 
Comer 
Dançar 
Fazer abdominais
Vender marmitex delivery 
Escrever uma carta (dessas de papel) pra si mesmo daqui a 5 anos 
Brincar com as crianças 
Fazer sexo 
Beber um cálice de vinho bem devagar 
Jogar vídeo game 
Fazer um terço de nozinhos 
Criar uma teoria maluca sobre a vida das formigas 
Cozinhar 
Cortar um chuchu prestando atenção no bagaço 
Ler um livro 
Fazer corrente de Facebook 
Arrumar o piso do passeio 
Lavar o carro 
Plantar sementes dos vegetais que for comendo 
Inventar uma receita usando miojo
Meter o pau no presidente Bolsonaro
Organizar um grupo de ajuda material a pessoas mais necessitadas 
Rezar 
Dormir 
Jogar jogo de tabuleiro 
Jogar baralho 
Entalhar um set de xadrez a partir de um cabo de vassoura velho 
Fazer uma máscara pra quando precisar ir à rua 
Ligar pro crush 
Ver no que dá misturar sabores aleatórios de tang
Prestar atenção no que está acontecendo com você agora. 
Você está respirando, aprecie atentamente 

Wednesday, April 1, 2020

des-re-conectar

Conversando com meu editor chefe descobri que ele não tem Internet em casa, pois opta por viver desconectado fora da editora, e por isso é um dos poucos que segue indo ao trabalho. 
Disse estar tomando todos os cuidados e tal. 
Achei-o corajoso, sem no entanto me achar covarde. 
Ontem numa conversa com minha médica, ela me foi explícita : "você não tem 6% de chance de morrer se pegar. Você tem 94% de chance de viver, e muito pouca chance de pegar."
A poluição na China diminuiu, o ozônio já está se recompondo, ventos se reativam, pessoas resolvendo de algum modo os problemas de casa, brincando com seus filhos, sendo solidários, pedindo ajuda, se dando a chance de serem fracos. 
A biosfera, da qual fazemos parte,  tem muita chance sem a gente. Nossa sociedade, uma espécie de infecção aguda. Esta parada, uma reação é esboçada ao nosso abuso. 
Mas que preço alto cada um de nós paga!
Estamos descobrindo que é possível a gente se reconectar à gente mesmo e redescobrir o que mais importa. 
Importa sobreviver. Importa sermos melhores. Importa a gente se lembrar de que é uma coletividade e que tudo bem dividir o que já acumulamos, tudo bem parar de acumular, como sociedade de consumo, o que implica em  indivíduos acumuladores consumindo. 
Tudo bem que gente, só por um tempo, tenha de se ser sacudido e lembrado de que somos parte de um grande organismo, a Terra. 
Tudo bem a gente descobrir, num tombo, que não será possível voltar como antes, e nem vamos querer, talvez. 
Tudo bem que a gente enfim se perceba barro, húmus, humanos. 
O que queremos é nos poder olhar, todos, nos olhos de quem realmente importa : nós mesmos, e os olhares dos mais queridos, que nos revelam quem somos. 
Por isso, digo: meu editor chefe já se antecipou, e já se desconectou da loucura da vida moderna antes. 
A vida moderna não é vida se nos escraviza.  Em favor da Vida da Terra,  a quarentena deveria ser uma oportunidade para desfrutarmos de nós mesmos, com tudo o que somos, calmamente. 
O período que se estende cada vez mais pede calma. 
E a calma mora do lado de dentro. 
Agora que a morte dá a volta ao mundo, enfim sabemos: não há mais longe e nem mais fundo que por dentro, onde se  pode ver quem se é. (Mafalda Veiga) 
Quão mais longe vamos, menos da Verdade sabemos.  (George Harrison)