Disse estar tomando todos os cuidados e tal.
Achei-o corajoso, sem no entanto me achar covarde.
Ontem numa conversa com minha médica, ela me foi explícita : "você não tem 6% de chance de morrer se pegar. Você tem 94% de chance de viver, e muito pouca chance de pegar."
A poluição na China diminuiu, o ozônio já está se recompondo, ventos se reativam, pessoas resolvendo de algum modo os problemas de casa, brincando com seus filhos, sendo solidários, pedindo ajuda, se dando a chance de serem fracos.
A biosfera, da qual fazemos parte, tem muita chance sem a gente. Nossa sociedade, uma espécie de infecção aguda. Esta parada, uma reação é esboçada ao nosso abuso.
Mas que preço alto cada um de nós paga!
Estamos descobrindo que é possível a gente se reconectar à gente mesmo e redescobrir o que mais importa.
Importa sobreviver. Importa sermos melhores. Importa a gente se lembrar de que é uma coletividade e que tudo bem dividir o que já acumulamos, tudo bem parar de acumular, como sociedade de consumo, o que implica em indivíduos acumuladores consumindo.
Tudo bem que gente, só por um tempo, tenha de se ser sacudido e lembrado de que somos parte de um grande organismo, a Terra.
Tudo bem a gente descobrir, num tombo, que não será possível voltar como antes, e nem vamos querer, talvez.
Tudo bem que a gente enfim se perceba barro, húmus, humanos.
O que queremos é nos poder olhar, todos, nos olhos de quem realmente importa : nós mesmos, e os olhares dos mais queridos, que nos revelam quem somos.
Por isso, digo: meu editor chefe já se antecipou, e já se desconectou da loucura da vida moderna antes.
A vida moderna não é vida se nos escraviza. Em favor da Vida da Terra, a quarentena deveria ser uma oportunidade para desfrutarmos de nós mesmos, com tudo o que somos, calmamente.
O período que se estende cada vez mais pede calma.
E a calma mora do lado de dentro.
Agora que a morte dá a volta ao mundo, enfim sabemos: não há mais longe e nem mais fundo que por dentro, onde se pode ver quem se é. (Mafalda Veiga)
Quão mais longe vamos, menos da Verdade sabemos. (George Harrison)
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