Wednesday, April 22, 2020

Plantando tomates com choques na coxa esquerda.

Acordei cedo pra cumprir o combinado com o Antonio ontem.
Plantar tomates nos vasos.

Separei a terra, misturei com palha, separamos as mudas nos vasos originais - umas 8.

Coloca terra, poe a muda, poe o tomateiro, poe mais terra. Pronto.

Ele se confunde um pouco entre não querer sujar as mãos e querer espalhar terra. Até que surge uma minhoca, grávida inclusive. Mostro pra ele os ovos em formação.

Ele pega a minhoca.

"É macia!"

Depois a pomos no vaso e ela vai se enterrando lentamente...

"Adeus, amiga minhoca! Adeus minhoca! Come seu papá"

E joga mais palha.

Separamos também as três mudas de taioba, já formadas, e replantamos na tina na qual ele tomava banho quando menor. Era uma banheira, depois esta tina, hoje em dia é no chuveiro.

Também plantamos jilós e uma das comidas preferidas - já que ele pede toda hora... - berinjela.

Jilós e berinjelas ficam um por vaso, o vaso em meia lua, duas meias luas se equilibram e ao mesmo tempo têm um efeito decorativo e as raízes não sinalizam entre si para se inibirem, pois estão separadas...

Para finalizar, as duas mudas de cebolinha remanescentes entre as taiobas.

Hora de limpar tudo, tirar a terra, tomar banho, trocar de roupa.

Hora do papai trabalhar. Quanto choro...!

Venho para aqui, trabalho, volto pra casa. Faço pizza, a tão desejada pizza, amada de todas as nações da terra. Ele come três fatias.

Mais tarde, deitamos juntos, ficamos nos olhando, meio adormecidos. Ele dorme primeiro. Quando o toco, acorda, então preciso andar com ele no colo pela sala enquanto rezo o terço e depois o depositar, com cuidado, em sua caminha, por volta de 0:20.

Desde ontem, o nervo ciático está dando choques. Peço exercícios de descompressão e alongamento, que são passados com carinho pela prima fisioterapeuta, pelo whatsapp.

Os faço, e dão realmente alívio. Enfrento as crises, em geral, com coragem e sem remédios, posto que no fundo os remédios não adiantam muito. O que adianta mesmo é passar o tempo e umas compressas de gelo, de água quente etc.

Sim, tenho hérnias de disco. Duas. E um abaulamento, e um pequeno bico de papagaio. Tão pequeno que deve ser de periquito australiano, no máximo.

Me assento no computador e constato que instalar o idioma e teclado gregos não soluciona o problema dos diacríticos de aspiração das vogais iniciais. O Windows é mesmo uma piada, e a página da Microsoft, que fabrica o negócio, não sabe resolver. Nem mesmo a ajuda em grego traz solução. No fim, uma informação de um usuário que, como eu, digita em grego no windows: "É um bug!"

Que bom. que previsível.

Penso longamente no Dr Tedros e seu anúncio, hoje, que a pandemia há de durar muito. Penso no que isto significa.

Penso no fato de o Sars-Cov-2 ter sido classificado pela comissão internacional de vírus como uma estirpe do Sars-Cov, da Epidemia de 2002. Não é uma nova espécie. Porque não há vacina para o Sars-Cov?

Percebo que é por falta de interesse econômico. O Sars-Cov original é transmissível (ou era) numa taxa muito menor que esta nova estirpe. Isto significou, à época, que os surtos foram controlados com medidas restritivas e, embora a mortalidade fosse bastante alta (cerca de 20%), depois de 5 ou 6 anos do fim da epidemia nos países que têm condição de fabricar uma vacina segura, que são os ricos, todos já tinham se esquecido dos rostos dos mortos.

Em 2016, quando a vacina chegou à fase de testes, cortaram o financiamento da mesma por falta de interesse econômico. Certo, a doença é realmente terrível e mata muita gente, mas porque investir alguns milhões de dólares nos ensaios da mesma se a transmissão pode ser mitigada com ações "mais baratas", como pequenas quarentenas locais ou municipais?

Então veio o Cov-2. Uma estirpe, uma mutação levemente diferente, que fez o vírus mais eficiente em trasmissão. Lógico, são mutações de viri de morcegos, com passagens, no caso do Cov, pelas civetas; e do Cov-2 pelos pangolins ou algum outro animal. A alta mutabilidade dos coronavirus dos morcegos ferradura não mudou, nem mudou o tráfico de animais silvestres, nem o desmatamento, nem nossa relação com o meio ambiente a partir da epidemia de 2002.

Agora correm feito loucos atrás de uma vacina, praticamente do zero, a não ser no caso de Israel, que está adaptando uma vacina para coronavirus aviário; e do mesmo instituto que em 2016 perdeu o financiamento para a vacina da sars, já tendo reconstruídos os passos e estando de novo no mesmo estádio que estava antes da perda do tal financiamento.

No mundo, mais de uma centena de vacinas em pesquisa. Delas, talvez 10% se provem minimamente eficazes. A chance de uma delas ser viável (isto é, segura, eficiente, barata, acessível e com possibilidade de produção em larguíssima escala) é de cerca de 1%, para o próximo ano ou ano e meio.

Se a vacina do Sars tivesse sido ensaiada, aprimorada, talvez estivesse disponível, e talvez inclusive fosse capaz de imunizar as duas estirpes. Uma vez que as duas estirpes são 80% ou mais semelhantes, então se as partes selecionadas pra se fazer a vacina fossem umas destas dos 80%... a covid-19 nunca teria se tornado um problema tão sério.

Penso no estresse de lavar os hortifruti. Se cada um plantasse tomates e berinjelas e jilós, cebolinhas e taiobas, laranjas e amoras e bananas (este ainda é um plano, exceto a banana tudo já está plantado)... acaso não haveria menos necessidade de comprar, mais segurança de se saber que é orgânico, mais prazer em ver crescer a própria comida, mais lógica em comer, de graça, o que a natureza dá... de graça?

Porque tanto pingo de ouro separando os terrenos, mas nenhum brócolis? Porque pata-de-vaca e quaresmeira, mas nenhuma amoreira ou macieira? Porque nosso modelo de habitação não inclui a obviedade de segurança alimentar, que não é algo tão complicado assim?

Porque todo mundo desesperado para trabalhar pros patrões de novo, e poder ir nas lojas, e poder... mas ninguém pensando que tem direito a ter o básico garantido pelo Estado?

Quando o dinheiro se tornou algo tão fundamental que nos fez esquecer a vida?

Não quero voltar pro mundo antes da pandemia. Não quero meeeeeixxxxxmo.

Quero mais tomateiros, e uma bananeira nanica, e couve e brócolis, e comer dos primeiros morangos que ainda virão, e muitos, pois o morangueiro se espalha agora pra casa do vizinho, sorrateiro, entre os malditos pingos de ouro.

Quero vida de verdade, com meu filho colhendo, de graça, a plantinha que plantamos de graça com as sementes que vieram de graça.

Quero um mundo de verdade, onde a saúde é colocada acima do dinheiro. Ora, o virus de morcegos seguiu existindo, todos SABIAM que um dia ele iria fazer o salto entre espécies de novo, e todos torciam para que fosse algo mais brando que a Sars, porque no fim torcer para algo mais brando é mais barato que fazer vacina pra uma doença que pode ser controlada de outros jeitos etc etc. A mesma lógica é aplicada pro Dengue. Não que não devamos tirar água dos pratinhos e tudo o mais, mas enquanto o Dengue for um vírus de país pobre, não vai ter vacina nunca. Quando invadir a Espanha, aí sim vamos ter a vacina maior rápido!

Eu tenho esperança no mundo melhor que pode brotar dessas sementes dos frutos podres do mundo que passou.

Toda relação com o mundo tem sementes. Sementes que podem ser de esperança, de conformidade ou de mudança. Eu já plantei as minhas. Meus tomates, em breve, estarão mudados para sempre.

E os seus?

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