Esta semana foi difícil pra mim.
Começou pelo Domingo de Ramos, e dei conta que nunca, em 30
anos ou mais dos meus 39, teve algum que eu não fui à igreja.
Depois veio a semana santa mesmo, especialmente a quinta,
sexta e hoje, sábado.
Dei conta que é a primeira vez em 12 ou 15 anos em que não
estou em alguma comunidade presidindo ao menos uma das celebrações da Páscoa,
do Tríduo.
Faço isto de presidir celebrações desde que ainda era membro
da igreja romana, feito “Ministro da Palavra”, depois de ter terminado a
faculdade de Teologia. Algo como desde os 25 anos.
Depois, na igreja episcopal, fui feito ministro em Outubro
de 2013, e passei para esta comunidade que escolhi em Junho ou Julho. Em Abril
o Maio daquele 2013, embora no coração já distante da hierarquia romana,
presidi comunidades na Páscoa, por senso comunitário, por cuidado, por entender
ali uma necessidade ou sei lá. Talvez por narcisismo. O narcisismo é um traço
bastante comum em lideranças comunitárias, mas mediado e trabalhado por um
senso de serviço e excentricidade, colocando-se fora do centro e o bem comum
naquele mesmo centro. Mas é evidente que a posição de “líder comunitário”,
religioso ou não, tem a ver com ao menos admitir e em certo nível gostar de
estar ali, aparecendo um pouco. Não vejo nisso um problema, quando posto a
serviço. Na verdade, vejo como um traço necessário.
Voltando à vaca fria, uma semana difícil. Além destas
memórias, as novas experiências de voltar pra casa em meio a toda a confusão
que está o mundo, observar que ainda tem gente demais nas ruas, recalcular
mantimentos e materiais para re-estocagem, fazer contas depois do anúncio do
parcelamento de pagamentos por parte da editora... tudo muito exigente!
Hoje, lendo um post de Facebook de Sua Graça, o Arcebispo de
Cantuária, um parágrafo do mesmo me despertou: “o mundo para o qual os
discípulos despertaram no evento da ressurreição não era mais o mesmo, e não
sabemos pelo que esperavam.”
Achei belo, e vou um pouco além neste ensaio breve, dizendo
que nem sei se esperavam algo, e que não souberam todos ao mesmo tempo que o
Cristo estava vivo.
A igreja, ao longo da história, toma o Sábado Santo
romanticamente como o tempo “no qual os discípulos aguardam junto ao sepulcro
pacientemente a ressurreição de Jesus.”
Mas os relatos do Evangelho não dizem isto. Se olharmos com
atenção, e fizermos uma tabela cuidadosa, poderemos ver que as mulheres que
foram ao túmulo de Jesus não estavam esperando encontrar outra coisa senão ele
lá, mortíssimo. Queriam lavar o corpo dele, e inclusive carregavam materiais
para tal.
O mesmo pode ser dito dos discípulos, um pouco mais tarde,
que avisados pelas discípulas correm ao túmulo para conferir se o que elas
disseram era verdade. Ora, se estivessem, estes discípulos ou discípulas,
esperando que ele ressuscitasse, não teriam se assustado ou espantado ou
corrido para contar uns e umas aos outrxs. Simplesmente fariam assim: “Ó,
ressuscitou mesmo! Igualzinho estávamos esperando!”
Mas mesmo as discípulas, as primeiras a encontrar o túmulo
vazio, perguntam “Onde está o corpo do Meu Senhor?”
A mesma falta de expectativa pode ser observada nos
discípulos de Emaús, que caminham no Evangelho de Lucas de volta pra casa. Eles
vão embora, não querem saber de mais nada, e recebem a visita de Jesus que lhes
explica que “era necessário que o Filho do Homem passasse por tudo aquilo para
entrar em sua glória.” Eles entendem, talvez acreditam, sentem mesmo o coração
arder... mas continuam em frente, em fuga, sem expectativa ou esperança. Só
quando a partilha do pão, por Jesus, acontece, é que “seus olhos se abriram e
eles reconheceram Jesus, dizendo um ao outro: ‘É o Senhor!’”... E voltam a
Jerusalém, onde descobrem que Jesus estava vivo e tinha aparecido a Cefas
(Pedro) e alguns dos discípulos.
Mas foram apenas alguns. Uma semana depois, pela cronologia
agora de João (sim, estou fazendo um exercício de ajustar as cronologias, algo
em desuso e chamado de “concordância evangélica”, mas que aqui e feito com
cuidado tem seu valor) Jesus aparece a Tomé, que não acreditava, ainda, que Ele
tivesse ressuscitado, e põe o dedo nas chagas, e se convence.
O ciclo das experiências de convencimento da ressurreição
pelos discípulos mais íntimos, os Doze os Os Apóstolos, se encerra aí em Tomé
no Evangelho de João em uma primeira leitura, embora o capítulo 21, se
considerado em continuidade com a narrativa da negação de Pedro apague aquela
fogueira da negação e ponha sobre ela brasa e peixe preparado (passou-se um
tempo daquele fogaréu medroso de Pedro, digamos assim) para enfim este passar a
perceber, ao lado do Discípulo Amado com o qual é colocado em contraste desde o
capítulo 13, que Jesus não só ressuscitou, como ele sabia, mas que VOLTAR ATRÁS
NÃO ERA POSSÍVEL.
A última aparição do ressuscitado, que em João se dá até
mesmo depois da recepção do Espírito Santo, ou Pentecostes se assim quisermos
dizer, é a tomada de consciência dos dois discípulos que textualmente
representam as duas principais vertentes da igreja da época, de que voltar atrás não é possível, e nem fazer o caminho do outro é possível. Pedro precisa
seguir em frente, sair de perto da fogueira da negação de que conhece Jesus e
será fiel até o fim, enquanto o Discípulo Amado, tentado a fazer o mesmo
caminho de Pedro, é alertado: “que te importa que eu queira que caminhos daqui
em diante sejam diferentes?”
A Tradição ensina que os Apóstolos se dispersaram, à exceção
de Tiago, que permaneceu em Jerusalém, mas vivendo de um jeito novo. A carta de
Tiago é direcionada a toda a Diáspora Judia, e as pregações até o terceiro
século do cristianismo sobre Tiago o têm como O Pilar da igreja oriental, além
de sua carta manter viva e propor novos ensaios do gênero literário usado por
Jesus, as parábolas, e inclusive é o único escrito do Novo Testamento que traz
parábolas diferentes das de Jesus: Tiago, embora por alguém de má vontade possa
dizer que ficou no mesmo lugar, passa a agir como líder jesuânico, escrevendo
como Jesus escrevia, e se dirigindo a todo o Povo de Deus representado por Toda
a Diáspora.
A vida nunca mais foi a mesma depois daquela sexta feira.
A experiência dos discípulos imediatos de Jesus não foi de
esperar que Ele ressuscitasse, mas de compreender gradualmente a partir do
anúncio que ele tinha saído daquele túmulo que Ele andava agora pelo mundo de
uma maneira nova.
É muito infantil de nossa parte, agora que experimentamos o
terror das mortes incontáveis, da desconfiança em relação aos vizinhos com quem
anteriormente eu amava brincar, da impossibilidade de irmos às casas de nossos
pais, de fazer contas de centavos e ter de decidir o que vamos parar de pagar,
de entreter os filhos, de olhar as favelas e comunidades e perceber o quanto
nossa omissão enquanto sociedade os condenou, desde sempre, à calamidade que se
avizinha, os nossos fracos desgovernantes, o pavor de talvez termos de olhar
pela janela o cadáver de vizinhos nas calçadas, o medo de se pensar no
respirador, o horror a cada tosse por alergia ou rinite...
Não seria muita estupidez querermos voltar ao mundo e ao
tipo de vida que nos trouxe exatamente a este desafio?
É preferível pensar que, como diz a bonita oração de pós
comunhão do LOC 2015, aqui adaptada, lágrimas terão fim, toda pergunta terá
resposta, pedras serão retiradas do caminho e um Novo Mundo será possível.
A nós caberá a tarefa, após a comunhão no cálice do Senhor
por nós, que somos seu Corpo, a de ir às esquinas e beiras de caminho da
Galiléia, das muitas Galiléias, anunciando que a vida nova nos precedeu e já
está ali, feita semente, no meio daquela dor da ruptura e da germinação, da
tranformação própria de vir-a-ser da semente, do parto de um Novo Modo de Ser.
Teremos pedras para tirar, lágrimas a enxugar, perguntas a
responder, um jeito novo de caminhar.
Se não quisermos fazer a experiência de não saber o que
fazer, se nos negarmos a experiência dos primeiros discípulos de nos sentirmos
perdidos, de ter medo, de não ter nenhuma perspectiva de continuidade, não
poderemos ser surpreendidos, como eles foram, pela notícia da ressurreição.
É preciso, desde já, nos comprometermos, em meio às dores de
percebermos as injustiças e inquidades que nos trouxeram até esta esquina e
beira de caminho, a mudar estas mesmas iniqüidades e injustiças. É preciso
saber que ELE NOS PRECEDE!
Esta fala colocada na boca do Anjo e dentro do Túmulo, em
Marcos, é claramente para a Igreja que veio imediatamente depois: Olha, vocês
estão aí vivendo as perseguições do Império, sendo jogados aos leões, usados
como tochas vivas e massacrados, mas em meio a esta dor de vocês todos agora
serem excluídos da vida comum, está a vida verdadeira, a vida nova, a vida que
não se acaba porque é capaz de se reinventar. Acreditem! Esperem! Tenham
coragem de encarar a possibilidade de morrer de frente! Unam-se! Encoragem-se!
Sejam solidários, comam juntos, coloquem suas coisas em comum, sustentem-se
juntos, porque sozinhos não vão agüentar! Mas também não dêem bandeira
construindo um templo enorme cheio de cristãos aglomerados, que aí é muito
fácil de encontrar!
Cada um de vocês pode rezar em casa, cada um de vocês é
sacerdote de sacerdotisa, cada um tenha certeza de que o que é importante de
saber vai chegar a vocês por meio de cartas, ou de textos como este aqui...!
O novo que precisamos hoje, neste sentido, começa pelos
velhos exercício de outrora, mas precisa, repito, precisa passar pela nossa falta
de perspectiva. Ela é libertadora.
Então comece por se reinventar. Comece limpando o que você
nunca limpou. Comece escrevendo um diário. Comece investindo nas suas relações
dentro de casa. Comece se assumindo pra si mesmo, como é. Comece ligando pras pessoas
(olha que beleza, na época de Marcos eles precisavam ver se por acaso aparecia,
do nada, alguma carta de um tal de Paulo ou de pessoas que nunca viram
pessoalmente...), comece sabendo que a vida não morre, ela só se reinventa.
Da mesma maneira que nos primeiros dias, a notícia e
percepção da liberdade da vida nova virá aos poucos. Uns terão a graça de pegar
e nem saber e ficar imunes, outros irão para uma cidade no Seridó e lá a vacina
vai chegar antes da doença, outros se resguardarão em casa e conseguirão ser
enfim imunizados relativamente pela imunização coletiva, que se Deus quiser vai
levar um tempão porque estamos achatando a curva, outros se Encantarão pela
doença atual ou outro motivo e viverão para sempre no meio de nós, feitos
memória e saudade... mas a notícia virá, a cada um, a seu tempo. Todos gozaremos
a possibilidade de viver de novo, normalmente, livremente.
Mas a pergunta é: Deste mundo libérrimo do qual sentimos
saudade, o que era estrutura de morte e que precisa ser transformada em vida?
Que tipo de vida viveremos no mundo, que talvez permaneça o mesmo? O que
lutaremos para mudar? Quão forte é a vida que brota, tímida agora, de nossa
experiência de espera paciente pelo tempo da semente?
Quem é você, afinal?
Alguém que sente falta dos chocolates ou alguém que espera
ansiosx a Nova Vida do/no Senhor?
Neste Sábado de expectativa, espero contigo junto ao túmulo
de tantas esperanças
Não tenhamos medo: elas ressurgirão, porque a Vida já nos
precede, mesmo que só consigamos nos lembrar, como os nossos primeiros pais na
fé, das imagens da Morte.
Porque Ele vive, podemos crer no Amanhã.